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Nocturno dos Anjos – Xavier Villaurrutia Março 27, 2008

Filed under: poesia,Xavier Villaurrutia — looking4good @ 2:55 am
Anjo na Catedral de Puebla. México daqui

Dir-se-ia que as ruas fluem serenas na noite.
As luzes não são nítidas que ajudem a revelar o segredo,
o segredo dos homens que passeiam, conhecem,
porque estão todos imersos no segredo
não ganhariam nada em fragmentá-lo
sim, é bom guardá-lo
e dividi-lo só com a pessoa eleita.

Se cada um falasse uma vez só,
e com uma só palavra, aquilo que pensa,
as letras do desejo moldariam uma grande cicatriz cintilante,
uma constelação antiga, mais viva ainda que as outras.
Seria uma constelação ardente como o sexo
no corpo profundo da noite,
ou como os gémeos que pela primeira vez na vida
se olham de frente, e se abraçam para sempre.

A rua enche-se com um rio de seres ávidos,
caminham, aguardam, prosseguem.
Trocam olhares, ensaiam sorrisos,
formam pares imprevisíveis…

Há esquinas e bancos sombrios,
auras indistintas, formas profundas,
e súbitos vãos com uma luz que cega
e portas que cedem à mais leve pressão.

A rua fica deserta num instante.
Parece afugentar de si mesmo
o desejo de começar de novo.
Está paralisado, mudo, ofegante
como o coração entre dois espasmos.

Mas uma nova pulsação
lança ao rio da rua outros seres sedentos.
Cruzam-se, e sobem,
voam ao rés do chão,
nadam de forma milagrosa
e ninguém se atreveria a dizer que não caminham.

São anjos,
desceram à terra
através de degraus invisíveis.
Vieram do mar, o espelho do céu,
em barcos de fumo e sombra,
a fundir-se e confundir-se com os mortais,
a inclinar os seus rostos entre as coxas das mulheres,
a deixar que outras mãos apapalpem febrilmente os seus corpos,
e que outros corpos procurem os seus até encontrá-los
como os lábios que se fecham,
a fatigar a boca tanto tempo estagnada,
a libertar as suas línguas de fogo,
a dizer juramentos, canções, e palavras porcas
com que os homens concentram o antigo mistério
da carne, do sangue, e do desejo.

Têm nomes fictícios, sinceramente divinos.
Chamam-se Dick ou John, Marvin ou Louis.
Em nada, senão na beleza, se distinguem dos mortais.
Passeiam, aguardam, e seguem.
Trocam olhares, ensaiam sorrisos,
formam pares imprevisíveis.

Sorriem astuciosos ao entrar nos elevadores dos hotéis
donde ainda praticam um voo lento e vertical.
Em seus copos nus há vestígios celestiais,
signos, estrelas, e letras azuis.
Deixam-se cair nas camas, e afundam-se nas almofadas
que os fazem pensar um momento nas nuvens.
Mas logo fecham os olhos para se entregar aos gozos da sua misteriosa encarnação,
e quando dormem não sonham com os anjos, mas com os mortais.

Trad. Jorge Henrique Barros, in Rosa do Mundo 2001 Poemas para o futuro

Xavier Villaurrutia ( nasceu em 27 Mar 1903, na Cidade do México, e faleceu em 1950).

Ler a Versão original: Nocturno de los ángeles

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Nocturno dos Anjos – Xavier Villaurrutia

Filed under: poesia,Xavier Villaurrutia — looking4good @ 2:55 am
Anjo na Catedral de Puebla. México daqui

Dir-se-ia que as ruas fluem serenas na noite.
As luzes não são nítidas que ajudem a revelar o segredo,
o segredo dos homens que passeiam, conhecem,
porque estão todos imersos no segredo
não ganhariam nada em fragmentá-lo
sim, é bom guardá-lo
e dividi-lo só com a pessoa eleita.

Se cada um falasse uma vez só,
e com uma só palavra, aquilo que pensa,
as letras do desejo moldariam uma grande cicatriz cintilante,
uma constelação antiga, mais viva ainda que as outras.
Seria uma constelação ardente como o sexo
no corpo profundo da noite,
ou como os gémeos que pela primeira vez na vida
se olham de frente, e se abraçam para sempre.

A rua enche-se com um rio de seres ávidos,
caminham, aguardam, prosseguem.
Trocam olhares, ensaiam sorrisos,
formam pares imprevisíveis…

Há esquinas e bancos sombrios,
auras indistintas, formas profundas,
e súbitos vãos com uma luz que cega
e portas que cedem à mais leve pressão.

A rua fica deserta num instante.
Parece afugentar de si mesmo
o desejo de começar de novo.
Está paralisado, mudo, ofegante
como o coração entre dois espasmos.

Mas uma nova pulsação
lança ao rio da rua outros seres sedentos.
Cruzam-se, e sobem,
voam ao rés do chão,
nadam de forma milagrosa
e ninguém se atreveria a dizer que não caminham.

São anjos,
desceram à terra
através de degraus invisíveis.
Vieram do mar, o espelho do céu,
em barcos de fumo e sombra,
a fundir-se e confundir-se com os mortais,
a inclinar os seus rostos entre as coxas das mulheres,
a deixar que outras mãos apapalpem febrilmente os seus corpos,
e que outros corpos procurem os seus até encontrá-los
como os lábios que se fecham,
a fatigar a boca tanto tempo estagnada,
a libertar as suas línguas de fogo,
a dizer juramentos, canções, e palavras porcas
com que os homens concentram o antigo mistério
da carne, do sangue, e do desejo.

Têm nomes fictícios, sinceramente divinos.
Chamam-se Dick ou John, Marvin ou Louis.
Em nada, senão na beleza, se distinguem dos mortais.
Passeiam, aguardam, e seguem.
Trocam olhares, ensaiam sorrisos,
formam pares imprevisíveis.

Sorriem astuciosos ao entrar nos elevadores dos hotéis
donde ainda praticam um voo lento e vertical.
Em seus copos nus há vestígios celestiais,
signos, estrelas, e letras azuis.
Deixam-se cair nas camas, e afundam-se nas almofadas
que os fazem pensar um momento nas nuvens.
Mas logo fecham os olhos para se entregar aos gozos da sua misteriosa encarnação,
e quando dormem não sonham com os anjos, mas com os mortais.

Trad. Jorge Henrique Barros, in Rosa do Mundo 2001 Poemas para o futuro

Xavier Villaurrutia ( nasceu em 27 Mar 1903, na Cidade do México, e faleceu em 1950).

Ler a Versão original: Nocturno de los ángeles

 

Nocturno dos Anjos – Xavier Villaurrutia

Filed under: poesia,Xavier Villaurrutia — looking4good @ 2:55 am
Anjo na Catedral de Puebla. México daqui

Dir-se-ia que as ruas fluem serenas na noite.
As luzes não são nítidas que ajudem a revelar o segredo,
o segredo dos homens que passeiam, conhecem,
porque estão todos imersos no segredo
não ganhariam nada em fragmentá-lo
sim, é bom guardá-lo
e dividi-lo só com a pessoa eleita.

Se cada um falasse uma vez só,
e com uma só palavra, aquilo que pensa,
as letras do desejo moldariam uma grande cicatriz cintilante,
uma constelação antiga, mais viva ainda que as outras.
Seria uma constelação ardente como o sexo
no corpo profundo da noite,
ou como os gémeos que pela primeira vez na vida
se olham de frente, e se abraçam para sempre.

A rua enche-se com um rio de seres ávidos,
caminham, aguardam, prosseguem.
Trocam olhares, ensaiam sorrisos,
formam pares imprevisíveis…

Há esquinas e bancos sombrios,
auras indistintas, formas profundas,
e súbitos vãos com uma luz que cega
e portas que cedem à mais leve pressão.

A rua fica deserta num instante.
Parece afugentar de si mesmo
o desejo de começar de novo.
Está paralisado, mudo, ofegante
como o coração entre dois espasmos.

Mas uma nova pulsação
lança ao rio da rua outros seres sedentos.
Cruzam-se, e sobem,
voam ao rés do chão,
nadam de forma milagrosa
e ninguém se atreveria a dizer que não caminham.

São anjos,
desceram à terra
através de degraus invisíveis.
Vieram do mar, o espelho do céu,
em barcos de fumo e sombra,
a fundir-se e confundir-se com os mortais,
a inclinar os seus rostos entre as coxas das mulheres,
a deixar que outras mãos apapalpem febrilmente os seus corpos,
e que outros corpos procurem os seus até encontrá-los
como os lábios que se fecham,
a fatigar a boca tanto tempo estagnada,
a libertar as suas línguas de fogo,
a dizer juramentos, canções, e palavras porcas
com que os homens concentram o antigo mistério
da carne, do sangue, e do desejo.

Têm nomes fictícios, sinceramente divinos.
Chamam-se Dick ou John, Marvin ou Louis.
Em nada, senão na beleza, se distinguem dos mortais.
Passeiam, aguardam, e seguem.
Trocam olhares, ensaiam sorrisos,
formam pares imprevisíveis.

Sorriem astuciosos ao entrar nos elevadores dos hotéis
donde ainda praticam um voo lento e vertical.
Em seus copos nus há vestígios celestiais,
signos, estrelas, e letras azuis.
Deixam-se cair nas camas, e afundam-se nas almofadas
que os fazem pensar um momento nas nuvens.
Mas logo fecham os olhos para se entregar aos gozos da sua misteriosa encarnação,
e quando dormem não sonham com os anjos, mas com os mortais.

Trad. Jorge Henrique Barros, in Rosa do Mundo 2001 Poemas para o futuro

Xavier Villaurrutia ( nasceu em 27 Mar 1903, na Cidade do México, e faleceu em 1950).

Ler a Versão original: Nocturno de los ángeles

 

Nocturno de los ángeles – Xavier Villaurrutia

Filed under: poesia,Xavier Villaurrutia — looking4good @ 2:39 am

Se diría que las calles fluyen dulcemente en la noche.
Las luces no son tan vivas que logren desvelar el secreto,
el secreto que los hombres que van y vienen conocen,
porque todos están en el secreto
y nada se ganaría con partirlo en mil pedazos
si, por el contrario, es tan dulce guardarlo
y compartirlo sólo con la persona elegida.

Si cada uno dijera en un momento dado,
en sólo una palabra, lo que piensa,
las cinco letras del DESEO formarían una enorme cicatriz luminosa,
una constelación más antigua, más viva aún que las otras.
Y esa constelación sería como un ardiente sexo
en el profundo cuerpo de la noche,
o, mejor, como los Gemelos que por vez primera en la vida
se miraran de frente, a los ojos, y se abrazaran ya para siempre.

De pronto el río de la calle se puebla de sedientos seres,
caminan, se detienen, prosiguen.
Cambian miradas, atreven sonrisas,
forman imprevistas parejas…

Hay recodos y bancos de sombra,
orillas de indefinibles formas profundas
y súbitos huecos de luz que ciega
y puertas que ceden a la presión más leve.

El río de la calle queda desierto un instante.
Luego parece remontar de sí mismo
deseoso de volver a empezar.
Queda un momento paralizado, mudo, anhelante
como el corazón entre dos espasmos.

Pero una nueva pulsación, un nuevo latido
arroja al río de la calle nuevos sedientos seres.
Se cruzan, se entrecruzan y suben.
Vuelan a ras de tierra.
Nadan de pie, tan milagrosamente
que nadie se atrevería a decir que no caminan.

¡Son los ángeles!
Han bajado a la tierra
por invisibles escalas.
Vienen del mar, que es el espejo del cielo,
en barcos de humo y sombra,
a fundirse y confundirse con los mortales,
a rendir sus frentes en los muslos de las mujeres,
a dejar que otras manos palpen sus cuerpos febrilmente,
y que otros cuerpos busquen los suyos hasta encontrarlos
como se encuentran al cerrarse los labios de una misma boca,
a fatigar su boca tanto tiempo inactiva,
a poner en libertad sus lenguas de fuego,
a decir las canciones, los juramentos, las malas palabras
en que los hombres concentran el antiguo misterio
de la carne, la sangre y el deseo.

Tienen nombres supuestos, divinamente sencillos.
Se llaman Dick o John, o Marvin o Louis.
En nada sino en la belleza se distinguen de los mortales.
Caminan, se detienen, prosiguen.
Cambian miradas, atreven sonrisas.
Forman imprevistas parejas.

Sonríen maliciosamente al subir en los ascensores de los hoteles
donde aún se practica el vuelo lento y vertical.
En sus cuerpos desnudos hay huellas celestiales;
signos, estrellas y letras azules.
Se dejan caer en las camas, se hunden en las almohadas
que los hacen pensar todavía un momento en las nubes.
Pero cierran los ojos para entregarse mejor a los goces de su encarnación misteriosa,
y, cuando duermen, sueñan no con los ángeles sino con los mortales.

Xavier Villaurrutia (n. México 27 Mar 1903; m. 1950)