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Teu Só Sossego aqui Contigo Ausente – Vitorino Nemésio (que faleceu há 31 anos) Fevereiro 20, 2009

Filed under: poesia,Vitorino Nemésio — looking4good @ 1:51 am

Teu só sossego aqui contigo ausente
Na casa que te veste à justa de paredes,
Tenho-te em móveis, nos perfumes, na semente
Dos cuidados que deixas ao partir,
A doce estância toda povoada
Dos mínimos sinais, dos sapatos de plinto
Que te elevam, Terpsícore ou Mnemósine,
Como uma estátua fiel ao labirinto.
Aqui, androceu da flor, o cálice abre aromas,
Farmácia chamo à tua colecção de vidros
Onde, à margem de planos e de somas,
Tenho remédio para os meus alvidros.
O chá é forte e adstringente,
O leite grosso sabe à ordenha,
E até nos quadros vive gente
À espera que a dona venha.
Porque tudo nos tectos é coroa,
No chão as traînes, os passinhos salpicados
Como o vento ainda longe de Lisboa
Escolheu a gaivota do balanço
Que no cais engolfado melhor voa:
Um vácuo, enfim, que o não será — tão logo
Chegues no ar medido e a aço propulso:
Por isso um pouco de fogo
Bate sanguíneo em meu pulso,
Pois o amor de quem espera
É uma graça a vencer.
Uma casa sem hera
É como gente sem viver.

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (n. Praia da Vitória, 19 de Dezembro de 1901 — m. Lisboa, 20 de Fevereiro de 1978)

Ler do mesmo autor:
Outro Testamento
Semântica electrónica
Loa
Concha

 

Já um pouco de vento se demora – Vitorino Nemésio (que nasceu faz hoje 107 anos) Dezembro 19, 2008

Filed under: poesia,Vitorino Nemésio — looking4good @ 3:09 am
Macieira imagem daqui

Já um pouco de vento se demora;
Já sua força vale a de uma mão
Nestes papéis que trago para fora,
Que o campo dá certeza e solidão.

O calor fez a casa mais delgada,
Agora colho a tarde: a vida não.
Sou a macieira carregada:
De palavras a mais cobri o chão.

Árvores há no outono que conhecem
O toque e ardor das folhas de amanhã
E esperando-as, altas, adormecem.
Com espaço e vento nunca a vida é vã.

Eu volto à mão do outono em meus papéis.
Penso e, indiscreto, o ar remove
Estas imagens cruéis
Que a minha vida comove

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (n. Praia da Vitória, 19 de Dezembro de 1901 — m. Lisboa, 20 de Fevereiro de 1978)

Ler do mesmo autor:
Outro Testamento
Semântica electrónica
Loa
Concha

 

Vitorino Nemésio faleceu há 30 anos – A Árvore do Silencio Fevereiro 20, 2008

Filed under: poesia,Vitorino Nemésio — looking4good @ 1:39 am

«Toda a vida estudei mais que pude de tudo para o que desse e viesse»

Se a nossa voz crescesse, onde era a árvore?
Em que pontas, a corola do silêncio?
Coração já cansado, és a raiz:
Uma ave te passe a outro país.

Coisas de terra são palavra:
Semeia o que calou.
Não faz sentido quem lavra
Se o não colhe do que amou.

Assim, sílaba e folha, porque não
Num só ramo levá las
Com a graça e o redondo de uma mão?

(Tu não te calas? Tu não te calas?!)

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (n. Praia da Vitória, 19 de Dezembro de 1901 — m. Lisboa, 20 de Fevereiro de 1978)

Ler do mesmo autor:
Outro Testamento
Semântica electrónica
Loa
Concha

 

A Concha – Vitorino Nemésio (que nasceu faz hoje 106 anos) Dezembro 19, 2007

Filed under: poesia,Vitorino Nemésio — looking4good @ 1:55 am
A minha casa é concha. Como os bichos,
segreguei-a de mim com paciência:
fachada de marés, a sonho e lixos,
o horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho, carregado de inocência,
se, às vezes, dá uma varanda, vence-a
o sal, que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
frágeis, cobertas de hera, ó bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa… Mas é outra história:
sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
sentado numa pedra da memória.

VITORINO NEMÉSIO Mendes Pinheiro da Silva nasceu na ilha Terceira (Açores) a 19 de Dezembro de 1901 e morreu em Lisboa a 20 de Fevereiro de 1978. Em 1922, matriculou-se em Direito na universidade de Coimbra, daí transitou para Letras (Ciências Histórico-Geográficas), mas acabou por se licenciar em Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa (1931), onde faria o doutoramento, em 1939, apresentando como tese «A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio». Entretanto, fora bolseiro em França (universidade de Montpellier), conferencista em Paris, Toulouse e Bordéus e professor agregado da universidade de Bruxelas (1937/38). Em 1937, fundara a «Revista de Portugal», que só durou até 1940. A sua obra poética iniciou-se com «La Voyelle Promise» (1935) e prosseguiria com «O Bicho Harmonioso» (1939), «Eu, comovido a Oeste» (1940), «Festa Redonda» (1950), etc., etc. É uma poesia surrealizante, que precede de longe o serôdio surrealismo à portuguesa. Foi também notável ficcionista, sendo a sua obra-prima o romance «Mau Tempo no Canal» (1944). Viajou infatigavelmente pelo Brasil (1952), Espanha. França, Inglaterra, Alemanha, Holanda, Suíça, Angola e Moçambique. Era doutor «honoris causa» pelas universidades de Montpellier e do Ceará e foi-lhe atribuído o prémio Montaigne em 1974. Acusado de dispersividade, a sua acção docente deslumbrou gerações de alunos durante décadas e atingiu o grande público, a partir de 1969, com um programa televisivo intitulado «Se Bem Me Lembro…».

Quer o poema quer a síntese biográfica foram retirados de «A Circulatura do Quadrado – Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.
Ler ainda de Vitorino Nemésio neste blog:
 

A Concha – Vitorino Nemésio (que nasceu faz hoje 106 anos)

Filed under: poesia,Vitorino Nemésio — looking4good @ 1:55 am
A minha casa é concha. Como os bichos,
segreguei-a de mim com paciência:
fachada de marés, a sonho e lixos,
o horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho, carregado de inocência,
se, às vezes, dá uma varanda, vence-a
o sal, que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
frágeis, cobertas de hera, ó bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa… Mas é outra história:
sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
sentado numa pedra da memória.

VITORINO NEMÉSIO Mendes Pinheiro da Silva nasceu na ilha Terceira (Açores) a 19 de Dezembro de 1901 e morreu em Lisboa a 20 de Fevereiro de 1978. Em 1922, matriculou-se em Direito na universidade de Coimbra, daí transitou para Letras (Ciências Histórico-Geográficas), mas acabou por se licenciar em Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa (1931), onde faria o doutoramento, em 1939, apresentando como tese «A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio». Entretanto, fora bolseiro em França (universidade de Montpellier), conferencista em Paris, Toulouse e Bordéus e professor agregado da universidade de Bruxelas (1937/38). Em 1937, fundara a «Revista de Portugal», que só durou até 1940. A sua obra poética iniciou-se com «La Voyelle Promise» (1935) e prosseguiria com «O Bicho Harmonioso» (1939), «Eu, comovido a Oeste» (1940), «Festa Redonda» (1950), etc., etc. É uma poesia surrealizante, que precede de longe o serôdio surrealismo à portuguesa. Foi também notável ficcionista, sendo a sua obra-prima o romance «Mau Tempo no Canal» (1944). Viajou infatigavelmente pelo Brasil (1952), Espanha. França, Inglaterra, Alemanha, Holanda, Suíça, Angola e Moçambique. Era doutor «honoris causa» pelas universidades de Montpellier e do Ceará e foi-lhe atribuído o prémio Montaigne em 1974. Acusado de dispersividade, a sua acção docente deslumbrou gerações de alunos durante décadas e atingiu o grande público, a partir de 1969, com um programa televisivo intitulado «Se Bem Me Lembro…».

Quer o poema quer a síntese biográfica foram retirados de «A Circulatura do Quadrado – Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.
Ler ainda de Vitorino Nemésio neste blog:
 

A Concha – Vitorino Nemésio (que nasceu faz hoje 106 anos)

Filed under: poesia,Vitorino Nemésio — looking4good @ 1:55 am
A minha casa é concha. Como os bichos,
segreguei-a de mim com paciência:
fachada de marés, a sonho e lixos,
o horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho, carregado de inocência,
se, às vezes, dá uma varanda, vence-a
o sal, que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
frágeis, cobertas de hera, ó bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa… Mas é outra história:
sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
sentado numa pedra da memória.

VITORINO NEMÉSIO Mendes Pinheiro da Silva nasceu na ilha Terceira (Açores) a 19 de Dezembro de 1901 e morreu em Lisboa a 20 de Fevereiro de 1978. Em 1922, matriculou-se em Direito na universidade de Coimbra, daí transitou para Letras (Ciências Histórico-Geográficas), mas acabou por se licenciar em Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa (1931), onde faria o doutoramento, em 1939, apresentando como tese «A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio». Entretanto, fora bolseiro em França (universidade de Montpellier), conferencista em Paris, Toulouse e Bordéus e professor agregado da universidade de Bruxelas (1937/38). Em 1937, fundara a «Revista de Portugal», que só durou até 1940. A sua obra poética iniciou-se com «La Voyelle Promise» (1935) e prosseguiria com «O Bicho Harmonioso» (1939), «Eu, comovido a Oeste» (1940), «Festa Redonda» (1950), etc., etc. É uma poesia surrealizante, que precede de longe o serôdio surrealismo à portuguesa. Foi também notável ficcionista, sendo a sua obra-prima o romance «Mau Tempo no Canal» (1944). Viajou infatigavelmente pelo Brasil (1952), Espanha. França, Inglaterra, Alemanha, Holanda, Suíça, Angola e Moçambique. Era doutor «honoris causa» pelas universidades de Montpellier e do Ceará e foi-lhe atribuído o prémio Montaigne em 1974. Acusado de dispersividade, a sua acção docente deslumbrou gerações de alunos durante décadas e atingiu o grande público, a partir de 1969, com um programa televisivo intitulado «Se Bem Me Lembro…».

Quer o poema quer a síntese biográfica foram retirados de «A Circulatura do Quadrado – Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.
Ler ainda de Vitorino Nemésio neste blog:
 

A Concha – Vitorino Nemésio (que nasceu faz hoje 106 anos)

Filed under: poesia,Vitorino Nemésio — looking4good @ 1:55 am
A minha casa é concha. Como os bichos,
segreguei-a de mim com paciência:
fachada de marés, a sonho e lixos,
o horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho, carregado de inocência,
se, às vezes, dá uma varanda, vence-a
o sal, que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
frágeis, cobertas de hera, ó bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa… Mas é outra história:
sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
sentado numa pedra da memória.

VITORINO NEMÉSIO Mendes Pinheiro da Silva nasceu na ilha Terceira (Açores) a 19 de Dezembro de 1901 e morreu em Lisboa a 20 de Fevereiro de 1978. Em 1922, matriculou-se em Direito na universidade de Coimbra, daí transitou para Letras (Ciências Histórico-Geográficas), mas acabou por se licenciar em Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa (1931), onde faria o doutoramento, em 1939, apresentando como tese «A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio». Entretanto, fora bolseiro em França (universidade de Montpellier), conferencista em Paris, Toulouse e Bordéus e professor agregado da universidade de Bruxelas (1937/38). Em 1937, fundara a «Revista de Portugal», que só durou até 1940. A sua obra poética iniciou-se com «La Voyelle Promise» (1935) e prosseguiria com «O Bicho Harmonioso» (1939), «Eu, comovido a Oeste» (1940), «Festa Redonda» (1950), etc., etc. É uma poesia surrealizante, que precede de longe o serôdio surrealismo à portuguesa. Foi também notável ficcionista, sendo a sua obra-prima o romance «Mau Tempo no Canal» (1944). Viajou infatigavelmente pelo Brasil (1952), Espanha. França, Inglaterra, Alemanha, Holanda, Suíça, Angola e Moçambique. Era doutor «honoris causa» pelas universidades de Montpellier e do Ceará e foi-lhe atribuído o prémio Montaigne em 1974. Acusado de dispersividade, a sua acção docente deslumbrou gerações de alunos durante décadas e atingiu o grande público, a partir de 1969, com um programa televisivo intitulado «Se Bem Me Lembro…».

Quer o poema quer a síntese biográfica foram retirados de «A Circulatura do Quadrado – Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.
Ler ainda de Vitorino Nemésio neste blog:
 

Outro Testamento – Vitorino Nemésio Fevereiro 20, 2007

Filed under: poesia,Vitorino Nemésio — looking4good @ 2:13 pm
No aniversário da morte do autor, há 29 anos, deixo aqui este seu “Outro Testamento”:

Figos

Quando eu morrer deitem-me nu à cova
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova
Para o amante que a não quis.

Façam coisas bonitas por minha alma:
Espalhem moedas, rosas, figos.
Dando-me terra dura e calma,
Cortem as unhas aos meus amigos.

Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados.
As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.
Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce…
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.

Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.

Quando eu morrer. . .
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.

Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.

Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me – só horizonte – para o mar

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva, n. na Praia da Vitória, Ilha Terceira, Açores a 19 Dez 1901; m. em Lisboa a 20 de Fev. 1978)

Ler do mesmo autor:
Semântica electrónica
Loa
Concha

 

Outro Testamento – Vitorino Nemésio

Filed under: poesia,Vitorino Nemésio — looking4good @ 2:13 pm
No aniversário da morte do autor, há 19 anos, deixo aqui este seu “Outro Testamento”:

Figos

Quando eu morrer deitem-me nu à cova
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova
Para o amante que a não quis.

Façam coisas bonitas por minha alma:
Espalhem moedas, rosas, figos.
Dando-me terra dura e calma,
Cortem as unhas aos meus amigos.

Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados.
As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.
Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce…
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.

Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.

Quando eu morrer. . .
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.

Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.

Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me – só horizonte – para o mar

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva, n. na Praia da Vitória, Ilha Terceira, Açores a 19 Dez 1901; m. em Lisboa a 20 de Fev. 1978)

Ler do mesmo autor:
Semântica electrónica
Loa
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Outro Testamento – Vitorino Nemésio

Filed under: poesia,Vitorino Nemésio — looking4good @ 2:13 pm
No aniversário da morte do autor, há 29 anos, deixo aqui este seu “Outro Testamento”:

Figos

Quando eu morrer deitem-me nu à cova
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova
Para o amante que a não quis.

Façam coisas bonitas por minha alma:
Espalhem moedas, rosas, figos.
Dando-me terra dura e calma,
Cortem as unhas aos meus amigos.

Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados.
As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.
Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce…
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.

Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.

Quando eu morrer. . .
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.

Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.

Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me – só horizonte – para o mar

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva, n. na Praia da Vitória, Ilha Terceira, Açores a 19 Dez 1901; m. em Lisboa a 20 de Fev. 1978)

Ler do mesmo autor:
Semântica electrónica
Loa
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