Nothingandall

Just another WordPress.com weblog

A Mão no Arado – Ruy Belo que nasceu há 76 anos Fevereiro 27, 2009

Filed under: poesia,Ruy Belo — looking4good @ 12:44 am
Tristeza imagem daqui

Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro
É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solitário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã

Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente

Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente.

in Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea, Um Panorama; organização de Alberto da Costa e Silva e Alexei Bueno

RUY de Moura Ribeiro BELO nasceu em Rio Maior (Ribatejo) a 27 de Fevereiro de 1933 e faleceu em Queluz a 8 de Agosto de 1978. Matriculou-se em Direito em Coimbra, mas concluiu a formatura em Lisboa (1956). Doutorou-se em Direito Canónico na universidade gregoriana de Roma (1958). Regressado a Lisboa, tirou o curso de Filologia Românica (1961/67). Em 1971, foi leitor de Português na universidade de Madrid. À data da morte, leccionava nos cursos nocturnos da escola técnica do Cacém, como professor provisório. Chegara a advogar e foi também tradutor e ensaísta: «Na Senda da Poeira» (1969). A sua poesia oferece-nos um discurso caudaloso de índole auto-reflexiva e experimentação formal. É uma complexa procura existencial, mais ontológica que religiosa, que conjuga uma ironia superior com a maestria linguística. O autor abandonara a Opus Dei e assumira uma posição política.

Ler do mesmo autor: E tudo era possível; Mas que sei eu…; Nomeei-te no meio dos meus sonhos; To Helena; Orla Marítima; Ficção

Nota biobliográfica extraída de «A Circulatura do Quadrado – Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004).
Anúncios
 

Orla Marítima – Ruy Belo (que desapareceu há 30 anos) Agosto 8, 2008

Filed under: poesia,Ruy Belo — looking4good @ 1:23 am
Praia de Maputo foto daqui

O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo da avenida
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como um homem se deita como um homem se levanta
Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao rio em redor
pássaros compêndios de vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida

in Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim

Ruy de Moura Belo (n. São João da Ribeira, Rio Maior 29 Fev 1933; m. em Queluz a 8 Ago 1978).

 

Orla Marítima – Ruy Belo (que desapareceu há 30 anos)

Filed under: poesia,Ruy Belo — looking4good @ 1:23 am
Praia de Maputo foto daqui

O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo da avenida
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como um homem se deita como um homem se levanta
Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao rio em redor
pássaros compêndios de vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida

in Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim

Ruy de Moura Belo (n. São João da Ribeira, Rio Maior 29 Fev 1933; m. em Queluz a 8 Ago 1978).

 

Ficção – Ruy Belo nasceu há 75 anos Fevereiro 27, 2008

Filed under: poesia,Ruy Belo — looking4good @ 1:18 am


Eu que resisto aos rios e às árvores
por muito que por plácidos me imponham
a sua incontestável existência
jamais a ti tão frágil eu opus resistência.

Não sei se te consente recordar
aquilo que por vezes te dizia:
procuro o teu mistério nos teus olhos
o teu rosto é tão vasto como um mundo
e quanto mais te olho mais pressinto
que é em vão que te procuro o fundo;

eu tinha o meu passado a minha vida
conhecia o lugar de certas coisas
e agora que te vi tudo esqueci
e se não tenho nada nem te tenho mesmo a ti
como posso pensar em ter futuro
se tu és para mim o puro instante
e a eternidade em que me transfiguro?

Eu não posso medir o que te dou
pois o mínimo gesto que te estendo
ao arriscar-me a mim arrisco quanto sou
A quem poderei hoje perguntar por ti?

RUY de Moura Ribeiro BELO nasceu em Rio Maior (Ribatejo) a 27 de Fevereiro de 1933 e faleceu em Queluz a 8 de Agosto de 1978. Matriculou-se em Direito em Coimbra, mas concluiu a formatura em Lisboa (1956). Doutorou-se em Direito Canónico na universidade gregoriana de Roma (1958). Regressado a Lisboa, tirou o curso de Filologia Românica (1961/67). Em 1971, foi leitor de Português na universidade de Madrid. À data da morte, leccionava nos cursos nocturnos da escola técnica do Cacém, como professor provisório. Chegara a advogar e foi também tradutor e ensaísta: «Na Senda da Poeira» (1969). A sua poesia oferece-nos um discurso caudaloso de índole auto-reflexiva e experimentação formal. É uma complexa procura existencial, mais ontológica que religiosa, que conjuga uma ironia superior com a maestria linguística. O autor abandonara a Opus Dei e assumira uma posição política.

Ler do mesmo autor: E tudo era possível; Mas que sei eu…; Nomeei-te no meio dos meus sonhos; To Helena

Nota biobliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado – Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004).

in

 

Ficção – Ruy Belo nasceu há 75 anos

Filed under: poesia,Ruy Belo — looking4good @ 1:18 am


Eu que resisto aos rios e às árvores
por muito que por plácidos me imponham
a sua incontestável existência
jamais a ti tão frágil eu opus resistência.

Não sei se te consente recordar
aquilo que por vezes te dizia:
procuro o teu mistério nos teus olhos
o teu rosto é tão vasto como um mundo
e quanto mais te olho mais pressinto
que é em vão que te procuro o fundo;

eu tinha o meu passado a minha vida
conhecia o lugar de certas coisas
e agora que te vi tudo esqueci
e se não tenho nada nem te tenho mesmo a ti
como posso pensar em ter futuro
se tu és para mim o puro instante
e a eternidade em que me transfiguro?

Eu não posso medir o que te dou
pois o mínimo gesto que te estendo
ao arriscar-me a mim arrisco quanto sou
A quem poderei hoje perguntar por ti?

RUY de Moura Ribeiro BELO nasceu em Rio Maior (Ribatejo) a 27 de Fevereiro de 1933 e faleceu em Queluz a 8 de Agosto de 1978. Matriculou-se em Direito em Coimbra, mas concluiu a formatura em Lisboa (1956). Doutorou-se em Direito Canónico na universidade gregoriana de Roma (1958). Regressado a Lisboa, tirou o curso de Filologia Românica (1961/67). Em 1971, foi leitor de Português na universidade de Madrid. À data da morte, leccionava nos cursos nocturnos da escola técnica do Cacém, como professor provisório. Chegara a advogar e foi também tradutor e ensaísta: «Na Senda da Poeira» (1969). A sua poesia oferece-nos um discurso caudaloso de índole auto-reflexiva e experimentação formal. É uma complexa procura existencial, mais ontológica que religiosa, que conjuga uma ironia superior com a maestria linguística. O autor abandonara a Opus Dei e assumira uma posição política.

Ler do mesmo autor: E tudo era possível; Mas que sei eu…; Nomeei-te no meio dos meus sonhos; To Helena

Nota biobliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado – Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004).

 

Ficção – Ruy Belo nasceu há 75 anos

Filed under: poesia,Ruy Belo — looking4good @ 1:18 am


Eu que resisto aos rios e às árvores
por muito que por plácidos me imponham
a sua incontestável existência
jamais a ti tão frágil eu opus resistência.

Não sei se te consente recordar
aquilo que por vezes te dizia:
procuro o teu mistério nos teus olhos
o teu rosto é tão vasto como um mundo
e quanto mais te olho mais pressinto
que é em vão que te procuro o fundo;

eu tinha o meu passado a minha vida
conhecia o lugar de certas coisas
e agora que te vi tudo esqueci
e se não tenho nada nem te tenho mesmo a ti
como posso pensar em ter futuro
se tu és para mim o puro instante
e a eternidade em que me transfiguro?

Eu não posso medir o que te dou
pois o mínimo gesto que te estendo
ao arriscar-me a mim arrisco quanto sou
A quem poderei hoje perguntar por ti?

RUY de Moura Ribeiro BELO nasceu em Rio Maior (Ribatejo) a 27 de Fevereiro de 1933 e faleceu em Queluz a 8 de Agosto de 1978. Matriculou-se em Direito em Coimbra, mas concluiu a formatura em Lisboa (1956). Doutorou-se em Direito Canónico na universidade gregoriana de Roma (1958). Regressado a Lisboa, tirou o curso de Filologia Românica (1961/67). Em 1971, foi leitor de Português na universidade de Madrid. À data da morte, leccionava nos cursos nocturnos da escola técnica do Cacém, como professor provisório. Chegara a advogar e foi também tradutor e ensaísta: «Na Senda da Poeira» (1969). A sua poesia oferece-nos um discurso caudaloso de índole auto-reflexiva e experimentação formal. É uma complexa procura existencial, mais ontológica que religiosa, que conjuga uma ironia superior com a maestria linguística. O autor abandonara a Opus Dei e assumira uma posição política.

Ler do mesmo autor: E tudo era possível; Mas que sei eu…; Nomeei-te no meio dos meus sonhos; To Helena

Nota biobliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado – Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004).

 

Ficção – Ruy Belo nasceu há 75 anos

Filed under: poesia,Ruy Belo — looking4good @ 1:18 am


Eu que resisto aos rios e às árvores
por muito que por plácidos me imponham
a sua incontestável existência
jamais a ti tão frágil eu opus resistência.

Não sei se te consente recordar
aquilo que por vezes te dizia:
procuro o teu mistério nos teus olhos
o teu rosto é tão vasto como um mundo
e quanto mais te olho mais pressinto
que é em vão que te procuro o fundo;

eu tinha o meu passado a minha vida
conhecia o lugar de certas coisas
e agora que te vi tudo esqueci
e se não tenho nada nem te tenho mesmo a ti
como posso pensar em ter futuro
se tu és para mim o puro instante
e a eternidade em que me transfiguro?

Eu não posso medir o que te dou
pois o mínimo gesto que te estendo
ao arriscar-me a mim arrisco quanto sou
A quem poderei hoje perguntar por ti?

RUY de Moura Ribeiro BELO nasceu em Rio Maior (Ribatejo) a 27 de Fevereiro de 1933 e faleceu em Queluz a 8 de Agosto de 1978. Matriculou-se em Direito em Coimbra, mas concluiu a formatura em Lisboa (1956). Doutorou-se em Direito Canónico na universidade gregoriana de Roma (1958). Regressado a Lisboa, tirou o curso de Filologia Românica (1961/67). Em 1971, foi leitor de Português na universidade de Madrid. À data da morte, leccionava nos cursos nocturnos da escola técnica do Cacém, como professor provisório. Chegara a advogar e foi também tradutor e ensaísta: «Na Senda da Poeira» (1969). A sua poesia oferece-nos um discurso caudaloso de índole auto-reflexiva e experimentação formal. É uma complexa procura existencial, mais ontológica que religiosa, que conjuga uma ironia superior com a maestria linguística. O autor abandonara a Opus Dei e assumira uma posição política.

Ler do mesmo autor: E tudo era possível; Mas que sei eu…; Nomeei-te no meio dos meus sonhos; To Helena

Nota biobliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado – Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004).