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Canção de todos – Raul de Leoni Novembro 21, 2006

Filed under: poesia,Raul de Leoni — looking4good @ 1:48 pm

Na efeméride da morte de Raul de Leoni, se transcreve aqui este poema:

Duas almas deves ter…
É um conselho dos mais sábios;
Uma, no fundo do Ser,
Outra, boiando nos lábios!

Uma, para os circunstantes,
Solta nas palavras nuas
Que inutilmente proferes,
Entre sorrisos e acenos:
A alma volúvel da ruas,
Que a gente mostra aos passantes,
Larga nas mãos das mulheres,
Agita nos torvelinhos,
Distribui pelos caminhos
E gasta sem mais nem menos,
Nas estradas erradias,
Pelas horas, pelos dias…

Alma anônima e usual,
Longe do Bem e do Mal,
Que não é má nem é boa,
Mas, simplesmente, ilusória,

Ágil, sutil, diluída,
Moeda falsa da Vida,
Que vale só porque soa,
Que compra os homens e a glória
E a vaidade que reboa
Alma que se enche e transborda,
Que não tem porquê nem quando,
Que não pensa e não recorda,
Não ama, não crê, não sente,
Mas vai vivendo e passando
No turbilhão da torrente,
Través intrincadas teias,
Sem prazeres e sem mágoas.
Fugitiva como as águas,
Ingrata como as areias.

Alma que passa entre apodos
Ou entre abraços, sorrindo,
Que vem e vai, vai e vem,
Que tu emprestas a todos,
Mas não pertence a ninguém.
Salamandra furta-cor,
Que muda ao menor rumor
Das folhas pelas devesas;
Alma que nunca se exprime,
Que é uma caixa de surpresas
Nas mãos dos homens prudentes;
Alma que é talvez um crime,
Mas que é uma grande defesa.

A outra alma, pérola rara,
Dentro da concha tranqüila,
Profunda, eterna e tão cara
Que poucos podem possuí-la,
É alma que nas entranhas
Da tua vida murmura
Quando paras e repousas.
A que assiste das Montanhas
As livres desenvolturas
Do panorama das cousas

Para melhor conhecê-las
E jamais comprometê-las,
Entre perdões e doçuras,
Num pudor silencioso,
Com o mesmo olhar generoso,
Com que contempla as estrelas
E assiste o sonho das flores…

Alma que é apenas tua,
Que não te trai nem te engana,
Que nunca se desvirtua,
Que é voz do mundo em surdina.
Que é a semente divina

Da tua têmpera humana,
Alma que só se descobre
Para uma lágrima nobre,
Para um heroísmo afetivo,
Nas íntimas confidências
De verdade e de beleza:

Milagre da natureza
Transcorrendo em reticências
Num sonho límpido e honesto,
De idealidade suprema,
Ora, aflorando num gesto,
Ora, subindo num poema.

Fonte do Sonho, jazida
Que se esconde aos garimpeiros,
Guardando, em fundos esteiros,
O ouro da tua Vida.

Alma de santo e pastor,
De herói, de mártir e de homem;
A redenção interior
Das forças que te consomem,
A legenda e o pedestal
Que se aprofunda e se agita
Da aspiração infinita
No teu ser universal.

Alma profunda e sombria,
Que ao fechar-se cada dia,
Sob o silêncio fecundo
Das horas graves e calmas,
Te ensina a filosofia
Que descobriu pelo mundo,
Que aprendeu nas outras almas

Duas almas tão diversas
Como o poente das auroras:
Uma, que passa nas horas;
Outra, que fica no tempo.

Raul de Leoni Ramos (n. Petrópolis, 30 Out 1895; m. Itaipava, 21 Nov 1926)

Ver do mesmo autor neste blog:
Pudor
Legenda dos dias
Soneto I de Sob Outros Céus

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Legenda dos dias – Raul de Leoni Outubro 30, 2006

Filed under: poesia,Raul de Leoni — looking4good @ 10:11 am

O Homem desperta e sai cada alvorada
Para o acaso das cousas… e, à saída,
Leva uma crença vaga, indefinida,
De achar o Ideal nalguma encruzilhada…

As horas morrem sobre as horas… Nada!
E ao poente, o Homem, com a sombra recolhida
Volta, pensando: “Se o Ideal da Vida
Não vejo hoje, virá na outra jornada…

Ontem, hoje, amanhã, depois, e, assim,
Mais ele avança, mais distante é o fim,
Mais se afasta o horizonte pela esfera;

E a Vida passa… efêmera e vazia:
Um adiantamento eterno que se espera,
Numa eterna esperança que se adia…

Raul de Leoni Ramos (n. Petropolis, 30 Out 1895; m. Itaipava, 21 Nov 1926)

Ler do mesmo autor:
Soneto I de Sob outros céus
Pudor

 

Legenda dos dias – Raul de Leoni

Filed under: poesia,Raul de Leoni — looking4good @ 10:11 am

O Homem desperta e sai cada alvorada
Para o acaso das cousas… e, à saída,
Leva uma crença vaga, indefinida,
De achar o Ideal nalguma encruzilhada…

As horas morrem sobre as horas… Nada!
E ao poente, o Homem, com a sombra recolhida
Volta, pensando: “Se o Ideal da Vida
Não vejo hoje, virá na outra jornada…

Ontem, hoje, amanhã, depois, e, assim,
Mais ele avança, mais distante é o fim,
Mais se afasta o horizonte pela esfera;

E a Vida passa… efêmera e vazia:
Um adiantamento eterno que se espera,
Numa eterna esperança que se adia…

Raul de Leoni Ramos (n. Petropolis, 30 Out 1895; m. Itaipava, 21 Nov 1926)

Ler do mesmo autor:
Soneto I de Sob outros céus
Pudor

 

Legenda dos dias – Raul de Leoni

Filed under: poesia,Raul de Leoni — looking4good @ 10:11 am

O Homem desperta e sai cada alvorada
Para o acaso das cousas… e, à saída,
Leva uma crença vaga, indefinida,
De achar o Ideal nalguma encruzilhada…

As horas morrem sobre as horas… Nada!
E ao poente, o Homem, com a sombra recolhida
Volta, pensando: “Se o Ideal da Vida
Não vejo hoje, virá na outra jornada…

Ontem, hoje, amanhã, depois, e, assim,
Mais ele avança, mais distante é o fim,
Mais se afasta o horizonte pela esfera;

E a Vida passa… efêmera e vazia:
Um adiantamento eterno que se espera,
Numa eterna esperança que se adia…

Raul de Leoni Ramos (n. Petropolis, 30 Out 1895; m. Itaipava, 21 Nov 1926)

Ler do mesmo autor:
Soneto I de Sob outros céus
Pudor

 

Soneto I de Sob Outros Céus – Raul de Leoni Novembro 21, 2005

Filed under: poesia,Raul de Leoni — looking4good @ 10:59 am

Eu vim ao mundo para ter saudade…
Ter saudade é sentir a natureza
Sob a etérea e inefável claridade
Do crepúsculo errante da tristeza.

Um vago enlevo espiritual invade
Minha imaginação que, de surpresa,
Céus distantes, memórias de outra idade
Revive, então, num sonho de pureza.

Sinto que essa emoção indefinida,
Povoando de visões meus pensamentos,
Provém da eterna comunhão da vida

É a alma das cousas que se evola, em calma,
Da vida conjugal dos elementos
E se reflete dentro de minha alma.

Soneto I de Sob Outros Céus
Raul de Leoni Ramos (n. Petrópolis, 30 Out 1895; m. Itaipava, 21 Nov 1926)

Ver do mesmo autor neste blog Pudor

 

Pudor – Raul de Leoni Outubro 30, 2005

Filed under: poesia,Raul de Leoni — looking4good @ 5:15 pm

Quando fores sentindo que o fulgor
Do teu Ser se corrompe e a adolescência
Do teu gênio desmaia e perde a cor,
Entre penumbras e deliquescência,

Faze a tua sagrada penitência,
Fecha-te num silêncio superior,
Mas não mostres a tua decadência
Ao mundo que assistiu teu esplendor!

Foge de tudo para o teu nadir!
Poupa ao prazer dos homens o teu drama!
Que é mesmo triste para os olhos ver

E assistir, sobre o mesmo panorama,
A alegoria matinal subir
E a ronda dos crepúsculos descer…

Raul de Leoni (n. Petrópolis RJ, 30 Out 1895; m. Itaipava RJ 21 Nov 1926)
Publicado no livro Luz Mediterrânea (1922). Poema integrante da série Felicidade.

In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 1959