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Ingratidão – Raul de Leoni Novembro 21, 2008

Filed under: poesia,Raul de Leoni — looking4good @ 1:56 am
Amendoeiras em flor imagem daqui

Nunca mais me esqueci!… Eu era criança
e em meu velho quintal, ao sol nascente,
plantei, com a minha mão ingénua e mansa,
uma linda amendoeira adolescente.

Era a mais rútila e íntima esperança…
Cresceu… cresceu… e, aos poucos, suavemente,
pendeu os ramos sobre o muro em frente
e foi frutificar na vizinhança…

Daí por diante, pela vida inteira,
todas as grandes árvores que em minhas
terras, num sonho esplêndido, semeio,

como aquela magnífica amendoeira,
e florescem nas chácaras vizinhas
e vão dar frutos no pomar alheio…

RAUL DE LEÔNI Ramos nasceu a 30 de Outubro de 1895 em Petrópolis (RJ) e faleceu a 21 de Novembro de 1926 em Itaipava (RJ). Bacharel em Direito (1916) pela universidade do Rio, tentou a carreira diplomática mas, após três meses em Montevideu (Uruguai), desistiu, alegando não poder viver longe do Brasil. Então, tornou-se inspector de uma companhia de seguros e veio a ser deputado à assembleia legislativa do estado do Rio de Janeiro. É um poeta de transição, enamorado da Grécia antiga, de Roma, de Florença, das cidades da Renascença italiana, da cultura mediterrânica e do mundo clássico. Céptico e irónico, a sua poesia é estético-filosófica. O seu autor, quando adolescente, viajara pela Europa. Fora depois ginasta e campeão de natação, mas acabou por morrer tuberculoso. A sua obra, porém, representa uma evasão no espaço e no tempo e não trai a doença, como acontecia com os românticos.

Ler do mesmo autor neste blog:
Decadência
História Antiga
Pudor
Canção de Todos
Legenda dos dias
Soneto I de Sob Outros Céus

Soneto e nota biobibliográfica acima extraídos de «A Circulatura do Quadrado – Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.
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Ingratidão – Raul de Leoni

Filed under: poesia,Raul de Leoni — looking4good @ 1:56 am
Amendoeiras em flor imagem daqui

Nunca mais me esqueci!… Eu era criança
e em meu velho quintal, ao sol nascente,
plantei, com a minha mão ingénua e mansa,
uma linda amendoeira adolescente.

Era a mais rútila e íntima esperança…
Cresceu… cresceu… e, aos poucos, suavemente,
pendeu os ramos sobre o muro em frente
e foi frutificar na vizinhança…

Daí por diante, pela vida inteira,
todas as grandes árvores que em minhas
terras, num sonho esplêndido, semeio,

como aquela magnífica amendoeira,
e florescem nas chácaras vizinhas
e vão dar frutos no pomar alheio…

RAUL DE LEÔNI Ramos nasceu a 30 de Outubro de 1895 em Petrópolis (RJ) e faleceu a 21 de Novembro de 1926 em Itaipava (RJ). Bacharel em Direito (1916) pela universidade do Rio, tentou a carreira diplomática mas, após três meses em Montevideu (Uruguai), desistiu, alegando não poder viver longe do Brasil. Então, tornou-se inspector de uma companhia de seguros e veio a ser deputado à assembleia legislativa do estado do Rio de Janeiro. É um poeta de transição, enamorado da Grécia antiga, de Roma, de Florença, das cidades da Renascença italiana, da cultura mediterrânica e do mundo clássico. Céptico e irónico, a sua poesia é estético-filosófica. O seu autor, quando adolescente, viajara pela Europa. Fora depois ginasta e campeão de natação, mas acabou por morrer tuberculoso. A sua obra, porém, representa uma evasão no espaço e no tempo e não trai a doença, como acontecia com os românticos.

Ler do mesmo autor neste blog:
Decadência
História Antiga
Pudor
Canção de Todos
Legenda dos dias
Soneto I de Sob Outros Céus

Soneto e nota biobibliográfica acima extraídos de «A Circulatura do Quadrado – Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.
 

Ingratidão – Raul de Leoni

Filed under: poesia,Raul de Leoni — looking4good @ 1:56 am
Amendoeiras em flor imagem daqui

Nunca mais me esqueci!… Eu era criança
e em meu velho quintal, ao sol nascente,
plantei, com a minha mão ingénua e mansa,
uma linda amendoeira adolescente.

Era a mais rútila e íntima esperança…
Cresceu… cresceu… e, aos poucos, suavemente,
pendeu os ramos sobre o muro em frente
e foi frutificar na vizinhança…

Daí por diante, pela vida inteira,
todas as grandes árvores que em minhas
terras, num sonho esplêndido, semeio,

como aquela magnífica amendoeira,
e florescem nas chácaras vizinhas
e vão dar frutos no pomar alheio…

RAUL DE LEÔNI Ramos nasceu a 30 de Outubro de 1895 em Petrópolis (RJ) e faleceu a 21 de Novembro de 1926 em Itaipava (RJ). Bacharel em Direito (1916) pela universidade do Rio, tentou a carreira diplomática mas, após três meses em Montevideu (Uruguai), desistiu, alegando não poder viver longe do Brasil. Então, tornou-se inspector de uma companhia de seguros e veio a ser deputado à assembleia legislativa do estado do Rio de Janeiro. É um poeta de transição, enamorado da Grécia antiga, de Roma, de Florença, das cidades da Renascença italiana, da cultura mediterrânica e do mundo clássico. Céptico e irónico, a sua poesia é estético-filosófica. O seu autor, quando adolescente, viajara pela Europa. Fora depois ginasta e campeão de natação, mas acabou por morrer tuberculoso. A sua obra, porém, representa uma evasão no espaço e no tempo e não trai a doença, como acontecia com os românticos.

Ler do mesmo autor neste blog:
Decadência
História Antiga
Pudor
Canção de Todos
Legenda dos dias
Soneto I de Sob Outros Céus

Soneto e nota biobibliográfica acima extraídos de «A Circulatura do Quadrado – Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.
 

Decadência – Raul de Leoni Outubro 30, 2008

Filed under: poesia,Raul de Leoni — looking4good @ 1:24 am

Afinal, é o costume de viver
Que nos faz ir vivendo para a frente.
Nenhuma outra intenção, mas, simplesmente
O hábito melancólico de ser…

Vai-se vivendo… é o vício de viver…
E se esse vício dá qualquer prazer à gente,
Como todo prazer vicioso é triste e doente,
Porque o Vício é a doença do Prazer…

Vai-se vivendo… vive-se demais,
E um dia chega em que tudo que somos
É apenas a saudade do que fomos…

Vai-se vivendo… e muitas vezes nem sentimos
Que somos sombras, que já não somos mais nada
Do que os sobreviventes de nós mesmos!…

Raul de Leoni Ramos (n. Petropolis, 30 Out 1895; m. Itaipava, a 21 Nov 1926)

Ler outros poemas de Raul Leoni no Nothingandall

 

História Antiga – Raul de Leoni Novembro 21, 2007

Filed under: poesia,Raul de Leoni — looking4good @ 1:01 am

No meu grande otimismo de inocente,
Eu nunca soube porque foi… um dia,
Ela me olhou indiferentemente,
Perguntei-lhe por que era… Não sabia…

Desde então, transformou-se, de repente,
A nossa intimidade correntia
Em saudações de simples cortesia
E a vida foi andando para a frente…

Nunca mais nos falamos… vai distante…
Mas, quando a vejo, há sempre um vago instante
Em que seu mudo olhar no meu repousa,

E eu sinto, sem no entanto compreendê-la,
Que ela tenta dizer-me qualquer cousa,
Mas que é tarde demais para dizê-la…

Raul de Leoni Ramos (n. Petropolis, 30 Out 1895; m. Itaipava, a 21 Nov 1926)

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Canção de todos – Raul de Leoni Novembro 21, 2006

Filed under: poesia,Raul de Leoni — looking4good @ 1:48 pm

Na efeméride da morte de Raul de Leoni, se transcreve aqui este poema:

Duas almas deves ter…
É um conselho dos mais sábios;
Uma, no fundo do Ser,
Outra, boiando nos lábios!

Uma, para os circunstantes,
Solta nas palavras nuas
Que inutilmente proferes,
Entre sorrisos e acenos:
A alma volúvel da ruas,
Que a gente mostra aos passantes,
Larga nas mãos das mulheres,
Agita nos torvelinhos,
Distribui pelos caminhos
E gasta sem mais nem menos,
Nas estradas erradias,
Pelas horas, pelos dias…

Alma anônima e usual,
Longe do Bem e do Mal,
Que não é má nem é boa,
Mas, simplesmente, ilusória,

Ágil, sutil, diluída,
Moeda falsa da Vida,
Que vale só porque soa,
Que compra os homens e a glória
E a vaidade que reboa
Alma que se enche e transborda,
Que não tem porquê nem quando,
Que não pensa e não recorda,
Não ama, não crê, não sente,
Mas vai vivendo e passando
No turbilhão da torrente,
Través intrincadas teias,
Sem prazeres e sem mágoas.
Fugitiva como as águas,
Ingrata como as areias.

Alma que passa entre apodos
Ou entre abraços, sorrindo,
Que vem e vai, vai e vem,
Que tu emprestas a todos,
Mas não pertence a ninguém.
Salamandra furta-cor,
Que muda ao menor rumor
Das folhas pelas devesas;
Alma que nunca se exprime,
Que é uma caixa de surpresas
Nas mãos dos homens prudentes;
Alma que é talvez um crime,
Mas que é uma grande defesa.

A outra alma, pérola rara,
Dentro da concha tranqüila,
Profunda, eterna e tão cara
Que poucos podem possuí-la,
É alma que nas entranhas
Da tua vida murmura
Quando paras e repousas.
A que assiste das Montanhas
As livres desenvolturas
Do panorama das cousas

Para melhor conhecê-las
E jamais comprometê-las,
Entre perdões e doçuras,
Num pudor silencioso,
Com o mesmo olhar generoso,
Com que contempla as estrelas
E assiste o sonho das flores…

Alma que é apenas tua,
Que não te trai nem te engana,
Que nunca se desvirtua,
Que é voz do mundo em surdina.
Que é a semente divina

Da tua têmpera humana,
Alma que só se descobre
Para uma lágrima nobre,
Para um heroísmo afetivo,
Nas íntimas confidências
De verdade e de beleza:

Milagre da natureza
Transcorrendo em reticências
Num sonho límpido e honesto,
De idealidade suprema,
Ora, aflorando num gesto,
Ora, subindo num poema.

Fonte do Sonho, jazida
Que se esconde aos garimpeiros,
Guardando, em fundos esteiros,
O ouro da tua Vida.

Alma de santo e pastor,
De herói, de mártir e de homem;
A redenção interior
Das forças que te consomem,
A legenda e o pedestal
Que se aprofunda e se agita
Da aspiração infinita
No teu ser universal.

Alma profunda e sombria,
Que ao fechar-se cada dia,
Sob o silêncio fecundo
Das horas graves e calmas,
Te ensina a filosofia
Que descobriu pelo mundo,
Que aprendeu nas outras almas

Duas almas tão diversas
Como o poente das auroras:
Uma, que passa nas horas;
Outra, que fica no tempo.

Raul de Leoni Ramos (n. Petrópolis, 30 Out 1895; m. Itaipava, 21 Nov 1926)

Ver do mesmo autor neste blog:
Pudor
Legenda dos dias
Soneto I de Sob Outros Céus

 

Canção de todos – Raul de Leoni

Filed under: poesia,Raul de Leoni — looking4good @ 1:48 pm

Na efeméride da morte de Raul de Leoni, se transcreve aqui este poema:

Duas almas deves ter…
É um conselho dos mais sábios;
Uma, no fundo do Ser,
Outra, boiando nos lábios!

Uma, para os circunstantes,
Solta nas palavras nuas
Que inutilmente proferes,
Entre sorrisos e acenos:
A alma volúvel da ruas,
Que a gente mostra aos passantes,
Larga nas mãos das mulheres,
Agita nos torvelinhos,
Distribui pelos caminhos
E gasta sem mais nem menos,
Nas estradas erradias,
Pelas horas, pelos dias…

Alma anônima e usual,
Longe do Bem e do Mal,
Que não é má nem é boa,
Mas, simplesmente, ilusória,

Ágil, sutil, diluída,
Moeda falsa da Vida,
Que vale só porque soa,
Que compra os homens e a glória
E a vaidade que reboa
Alma que se enche e transborda,
Que não tem porquê nem quando,
Que não pensa e não recorda,
Não ama, não crê, não sente,
Mas vai vivendo e passando
No turbilhão da torrente,
Través intrincadas teias,
Sem prazeres e sem mágoas.
Fugitiva como as águas,
Ingrata como as areias.

Alma que passa entre apodos
Ou entre abraços, sorrindo,
Que vem e vai, vai e vem,
Que tu emprestas a todos,
Mas não pertence a ninguém.
Salamandra furta-cor,
Que muda ao menor rumor
Das folhas pelas devesas;
Alma que nunca se exprime,
Que é uma caixa de surpresas
Nas mãos dos homens prudentes;
Alma que é talvez um crime,
Mas que é uma grande defesa.

A outra alma, pérola rara,
Dentro da concha tranqüila,
Profunda, eterna e tão cara
Que poucos podem possuí-la,
É alma que nas entranhas
Da tua vida murmura
Quando paras e repousas.
A que assiste das Montanhas
As livres desenvolturas
Do panorama das cousas

Para melhor conhecê-las
E jamais comprometê-las,
Entre perdões e doçuras,
Num pudor silencioso,
Com o mesmo olhar generoso,
Com que contempla as estrelas
E assiste o sonho das flores…

Alma que é apenas tua,
Que não te trai nem te engana,
Que nunca se desvirtua,
Que é voz do mundo em surdina.
Que é a semente divina

Da tua têmpera humana,
Alma que só se descobre
Para uma lágrima nobre,
Para um heroísmo afetivo,
Nas íntimas confidências
De verdade e de beleza:

Milagre da natureza
Transcorrendo em reticências
Num sonho límpido e honesto,
De idealidade suprema,
Ora, aflorando num gesto,
Ora, subindo num poema.

Fonte do Sonho, jazida
Que se esconde aos garimpeiros,
Guardando, em fundos esteiros,
O ouro da tua Vida.

Alma de santo e pastor,
De herói, de mártir e de homem;
A redenção interior
Das forças que te consomem,
A legenda e o pedestal
Que se aprofunda e se agita
Da aspiração infinita
No teu ser universal.

Alma profunda e sombria,
Que ao fechar-se cada dia,
Sob o silêncio fecundo
Das horas graves e calmas,
Te ensina a filosofia
Que descobriu pelo mundo,
Que aprendeu nas outras almas

Duas almas tão diversas
Como o poente das auroras:
Uma, que passa nas horas;
Outra, que fica no tempo.

Raul de Leoni Ramos (n. Petrópolis, 30 Out 1895; m. Itaipava, 21 Nov 1926)

Ver do mesmo autor neste blog:
Pudor
Legenda dos dias
Soneto I de Sob Outros Céus