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Universalidade II – Roberto de Mesquita Junho 19, 2009

Filed under: poesia,Roberto de Mesquita — looking4good @ 12:29 am
Casa de Montanha imagem daqui

Enquanto se detém o vosso olhar
à tona dos aspectos, impotente,
no âmago de tudo, claramente,
eu descubro um espirito a cismar.

Deleita-se a minha alma a respirar
os afectos das coisas: a dolente
nostalgia dum cerro olhando o mar,
a oração das paisagens ao morrente

Sim, eu respiro como essência estranha
a orfandade que exala uma montanha
quando o outono a junca de destroços.

E esses casais, dispersos pelo monte,
sinto-os pensar, cravando no horizonte
os seus olhos humanos como os nossos.

Roberto Augusto de Mesquita Henriques (nasceu em Santa Cruz das Flores, Açores a 19 de Junho de 1871 e aí faleceu, de síncope cardíaca, a 31 de Dezembro de 1923).

Ler do mesmo autor neste blog Aves do Mar; Abandonadas

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A Ermitagem da Montanha – António Feliciano de Castilho Junho 18, 2009

Filed under: António Feliciano de Castilho,poesia — looking4good @ 12:44 am

(…)
Sim, Júlia, querida Júlia;
Ah! pudesse o meu amor
Dar-te da sua violência
Uma prova inda maior!

Atravessar por desertos
A extensão da imensidade;
Passar mil séculos juntos
No meio da tempestade;

Fender todo inteiro a nado
De fogo um mar infinito;
-Júlia, eu te amo, eu te amo, ó Júlia
Ninguém me ouvira outro grito.

extraído de Os dias do Amor, Um poema para cada dia do ano, Recolha, selecção e organização de Inês Ramos; prefácio de Henrique Manuel Bento Filho, Ministério dos Livros 2009

António Feliciano de Castilho (n. 28 Jan 1800; m. 18 Jun 1875)

 

Saudade – António Franco Alexandre Junho 16, 2009

Filed under: António Franco Alrexandre,poesia — looking4good @ 11:51 pm

Tal como és, assim te quero, e sempre
diverso cada dia do que foste;
cada imperfeito gesto que inventares
me fará desejar-te em outro verso.

Da arte do soneto feito mestre
no concurso sem regra da floresta,
na mais pequena folha te descubro
e no caule do vento é que te perco.

Da turva luz já retirei o emblema
que me sirva de rosto permanente
e venha o cabeçalho do poema;

e pedirei à noite que me empreste
um farrapo do manto incandescente
de que se veste, agora, para ter-te.

António Franco Alexandre (nasceu em 17 de Junho de 1944, em Viseu)

 

Casa – David Mourão-Ferreira (no 13º. aniversário da morte do poeta)

Filed under: David Mourão-Ferreira,poesia — looking4good @ 12:14 am

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão…

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.

Extraído de Cem Sonetos Portugueses, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar

David de Jesus Mourão-Ferreira (n. em Lisboa a 24 Fev. 1927; m. Lisboa a 16 Jun 1996)

Ler do mesmo autor:
E Por Vezes
Nocturno
Paraíso
Ternura
Labirinto
Penelope
Primavera
Equinócio

 

A Mulher e o Reino – Ariano Suassuna Junho 15, 2009

Filed under: Ariano Suassuna,poesia — looking4good @ 11:45 pm
Pomegrenate - romã Romã foto daqui

Oh! Romã do pomar, relva esmeralda
Olhos de ouro e azul, minha alazã
Ária em forma de sol, fruto de prata
Meu chão, meu anel, cor do amanhã

Oh! Meu sangue, meu sono e dor, coragem
Meu candeeiro aceso da miragem
Meu mito e meu poder, minha mulher

Dizem que tudo passa e o tempo duro
tudo esfarela
O sangue há de morrer

Mas quando a luz me diz que esse ouro puro se acaba por finar e corromper
Meu sangue ferve contra a vã razão
E há de pulsar o amor na escuridão

Ariano Vilar Suassuna (nasceu na cidade da Paraíba, actual João Pessoa, Paraíba, a 16 de junho de 1927).

 

Mãe! Vem ouvir …- Almada Negreiros Junho 14, 2009

Filed under: Almada Negreiros,poesia — looking4good @ 11:40 pm
Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue verdadeiro, encarnado!
Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me ao teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero Ter um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!

Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

in Rosa do Mundo 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim

José Sobral de Almada Negreiros (n. em S. Tomé e Príncipe a 7 Abr 1893; m. 15 de Junho de 1970 em Lisboa)

Ler do mesmo autor, neste blog, Esperança

 

Do que Nada se Sabe – Jorge Luís Borges

Filed under: Jorge Luis Borges,poesia — looking4good @ 2:18 am

A lua ignora que é tranquila e clara
E não pode sequer saber que é lua;
A areia, que é a areia. Não há uma
Coisa que saiba que sua forma é rara.

As peças de marfim são tão alheias
Ao abstracto xadrez como essa mão
Que as rege. Talvez o destino humano,
Breve alegria e longas odisseias,

Seja instrumento de Outro. Ignoramos;
Dar-lhe o nome de Deus não nos conforta.
Em vão também o medo, a angústia, a absorta

E truncada oração que iniciamos.
Que arco terá então lançado a seta
Que eu sou? Que cume pode ser a meta?

(versão original)

La luna ignora que es tranquila y clara
y ni siquiera sabe que es la luna;
la arena, que es la arena. No habrá una
cosa que sepa que su forma es rara.

Las piezas de marfil son tan ajenas
al abstracto ajedrez como la mano
que las rige. Quizá el destino humano
de breves dichas y de largas penas

es instrumento de otro. Lo ignoramos;
darle nombre de Dios no nos ayuda.
Vanos también son el temor, la duda

y la trunca plegaria que iniciamos.
¿Qué arco habrá arrojado esta saeta
que soy? ¿Qué cumbre puede ser la meta?

Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo (nasceu em Buenos Aires, 24 de Agosto de 1899 — faleceu em Genebra, 14 de Junho de 1986)

Ler do mesmo autor neste blog: Limites; O Mar