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IX Como eu não possuo – Mário de Sá-Carneiro Maio 19, 2009

Filed under: Mário de Sá-Carneiro,poesia — looking4good @ 12:06 am
Abraçoimagem daqui

Olho em volta de mim. Todos possuem —
Um afecto, um sorriso ou um abraço.
Só para mim as ânsias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço.

Roça por mim, em longe, a teoria
Dos espasmos golfados ruivamente;
São êxtases da cor que eu fremiria,
Mas a minhalma pára e não os sente!

Quero sentir. Não sei… perco-me todo…
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo para ascender ao céu,
Falta-me unção pra me afundar no lodo.

Não sou amigo de ninguém. Pra o ser
Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse — ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!…

Castrado de alma e sem saber fixar-me,
Tarde a tarde na minha dor me afundo…
Serei um emigrado doutro mundo
Que nem na minha dor posso encontrar-me?…

Como eu desejo a que ali vai na rua,
Tão ágil, tão agreste, tão de amor…
Como eu quisera emaranhá-la nua,
Bebê-la em espasmos de harmonia e cor!…

Desejo errado… Se a tivera um dia,
Toda sem véus, a carne estilizada
Sob o meu corpo arfando transbordada,
Nem mesmo assim — ó ânsia! — eu a teria…

Eu vibraria só agonizante
Sobre o seu corpo de êxtases doirados,
Se fosse aqueles seios transtornados,
Se fosse aquele sexo aglutinante…

De embate ao meu amor todo me ruo,
E vejo-me em destroço até vencendo:
É que eu teria só, sentindo e sendo
Aquilo que estrebucho e não possuo.

Paris, Maio1913
in Mário de Sá-Carneiro Poemas Completos, edição Fernando Cabral Martins, Assírio & Alvim

Mário de Sá-Carneiro (n. Lisboa, 19 de Maio de 1890; m. em Paris, 26 de Abril de 1916 -suicídio).

Ler do mesmo autor neste blog:
A Inegualável
Escavação
Ápice
Além-Tédio
Quase
Dispersão
I lost myself within myself… (tradução parcial do poema Dispersão)
Último Soneto

 

Escavação – Mário de Sá-Carneiro Maio 19, 2008

Filed under: Mário de Sá-Carneiro,poesia — looking4good @ 12:02 am

Numa ânsia de ter alguma cousa,
Divago por mim mesmo a procurar
Desço-me todo, em vão, sem nada achar,
E a minha’alma perdida não repousa.

Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama genial que tudo ousa
Unicamente à força de sonhar…

Mas a vitória fulva esvai-se logo…
E cinzas, cinzas só, em vez de fogo…
-Onde existo que não existo em mim?

…………………………
…………………………

Um cemitério falso sem ossadas,
Noites d’amor sem bocas esmagadas –
Tudo outro espasmo que principio ou fim…

Paris 1913 – Maio 3

in Mário de Sá-Carneiro, Poemas Completos, edição Fernando Cabral Martins, Assírio & Alvim

Mário de Sá-Carneiro (n. Lisboa, 19 de Maio de 1890; n. em Paris, 26 de Abril de 1916).

Mais poemas de Mário Sá-Carneiro

 

Ápice – Mário de Sá-Carneiro Abril 26, 2008

Filed under: Mário de Sá-Carneiro,poesia — looking4good @ 1:17 am
A child sleeping by Alessandro Zangrilli

Fios de oiro puxam por mim
a soerguer-me na poeira —
Cada um para seu fim,
Cada um para seu norte…
……………………………….

— Ai que saudade da morte…

……………………………….

Quero dormir… ancorar…
……………………………….

Arranquem-me esta grandeza!
— P’ra que me sonha a beleza
Se a não posso transmigrar?…

Mário de Sá-Carneiro (n. em Lisboa a 19 de Maio de 1890 e suicidou-se em Paris a 26 de Abril de 1916)

 

Ápice – Mário de Sá-Carneiro

Filed under: Mário de Sá-Carneiro,poesia — looking4good @ 1:17 am
A child sleeping by Alessandro Zangrilli

Fios de oiro puxam por mim
a soerguer-me na poeira —
Cada um para seu fim,
Cada um para seu norte…
……………………………….

— Ai que saudade da morte…

……………………………….

Quero dormir… ancorar…
……………………………….

Arranquem-me esta grandeza!
— P’ra que me sonha a beleza
Se a não posso transmigrar?…

Mário de Sá-Carneiro (n. em Lisboa a 19 de Maio de 1890 e suicidou-se em Paris a 26 de Abril de 1916)

 

Ápice – Mário de Sá-Carneiro

Filed under: Mário de Sá-Carneiro,poesia — looking4good @ 1:17 am
A child sleeping by Alessandro Zangrilli

Fios de oiro puxam por mim
a soerguer-me na poeira —
Cada um para seu fim,
Cada um para seu norte…
……………………………….

— Ai que saudade da morte…

……………………………….

Quero dormir… ancorar…
……………………………….

Arranquem-me esta grandeza!
— P’ra que me sonha a beleza
Se a não posso transmigrar?…

Mário de Sá-Carneiro (n. em Lisboa a 19 de Maio de 1890 e suicidou-se em Paris a 26 de Abril de 1916)

 

Além-tédio – Mário de Sá-Carneiro Abril 26, 2007

Filed under: Mário de Sá-Carneiro,poesia — looking4good @ 12:50 pm

Nada me expira já, nada me vive –
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, enfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital…
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.

Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.

Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu… Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A própria maravilha tinha cor!

Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tédio.

E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios…

Mário de Sá-Carneiro (n. Lisboa a 19 Mai 1890, m. em Paris (suicidio) a 26 Abr 1916)

Ler do mesmo autor: Quase ; Dispersão; I lost myself within myself… (tradução parcial do poema Dispersão); Último Soneto

 

Último Soneto – Mário de Sá-Carneiro Abril 26, 2006

Filed under: Mário de Sá-Carneiro,poesia — looking4good @ 1:49 pm

Que rosas fugitivas foste ali!
Requeriam-te os tapetes, e vieste…
– Se me dói hoje o bem que me fizeste,
É justo, porque muito te devi.

Em que seda de afagos me envolvi
Quando entraste, nas tardes que apareceste!
Como fui de percal quando me deste
Tua boca a beijar, que remordi…

Pensei que fosse o meu o teu cansaço —
Que seria entre nós um longo abraço
O tédio que, tão esbelta, te curvava…

E fugiste… Que importa? Se deixaste
A lembrança violeta que animaste,
Onde a minha saudade a Cor se trava?…

Mário de Sá-Carneiro (n. Lisboa a 19 Mai 1890, m. em Paris (suicidio) a 26 Abr 1916)

Ler do mesmo autor: Quase ; Dispersão; I lost myself within myself… (tradução parcial do poema Dispersão)

 

Quase – Mário Sá Carneiro Maio 19, 2005

Filed under: Mário de Sá-Carneiro,poesia — looking4good @ 12:39 pm

Um pouco mais de sol – eu era brasa,
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…
Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho – ó dor! – quase vivido…
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim – quase a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo … e tudo errou…
– Ai a dor de ser – quase, dor sem fim…
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou…
Momentos de alma que, desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…
Se me vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…
Um pouco mais de sol – e fora brasa,
Um pouco mais de azul – e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Mário Sá Carneiro

 

Dispersão – Mário de Sá-Carneiro

Filed under: Mário de Sá-Carneiro,poesia — looking4good @ 12:35 pm

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida…

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.
(…)

Desceu-me n’alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E louco, não enlouqueço…
A hora fogfe vivida,
Eu sigo-a, mas permaneço…

…………………..
………………….
Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba….
……………………..
…………………….

Dispersão (excerto)
Paris – maio de 1913

Mário de Sá-Carneiro (n. 19 Mai 1890; m. 26 Abr 1916)

 

Último soneto – Mário de Sá Carneiro

Filed under: Mário de Sá-Carneiro,poesia — looking4good @ 12:24 pm

Que rosas fugitivas foste ali:
Requeriam-te os tapetes – e vieste…
– Se me dói hoje o bem que me fizeste,
É justo, porque muito te devi.

Em que seda de afagos me envolvi
Quando entraste, nas tardes que apareceste –
Como fui de percal quando me deste
Tua boca a beijar, que remordi…

Pensei que fosse o meu o teu cansaço –
Que seria entre nós um longo abraço
O tédio que, tão esbelta, te curvava…

E fugiste… Que importa ? Se deixaste
A lembrança violeta que animaste
Onde a minha saudade a Cor se trava?…

Mário Sá Carneiro (1890 – 1916)
Paris – Dezembro 1915