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À Tarde – Manuel Laranjeira Fevereiro 22, 2009

Filed under: Manuel Laranjeira,poesia — looking4good @ 3:38 am
Ao Entardecer Entardecer imagem daqui

A tarde lenta cai. E cai também
Uma melancolia venenosa,
Meu Deus! que se não sabe de onde vem…

E vem como uma sombra vagarosa
Que chovesse dum céu crepuscular…
Vem subindo da terra dolorosa
Como um grande dilúvio de pesar,
Como um olhar de dor silenciosa
Que tentasse subir para as estrelas
E ficasse disperso pelo ar…

E vem do fundo de alma… Perscrutasse
A gente o coração pr’a sentir bem
Que é lá no fundo de alma que a dor nasce
E é de lá sobretudo que ela vem…

De lá! De lá do fundo! Bem do fundo
De nós mesmos… E, lenta, vem subindo
Aos olhos que a reflectem, reflectindo
Na nossa dor a dor de todo o mundo!

Dolorosamente
A tarde exausta morre de cansaço
E parece que sofre a natureza…
Anda uma luz de cinza pelo espaço
E lentamente
Envolve as coisas todas de tristeza…

E a tarde cai nos olhos e entristece-os…
E toda a melancolia,
De lá do fundo de alma aonde está,
Vem-nos subindo aos olhos e escurece-os…

Os olhos escurecem e dir-se-ia
Que é de lá
Que a tristeza das coisas irradia…

A tristeza das coisas… Afinal,
Ó tristeza das coisas, tu existes
Dentro de nós, em nossas almas tristes
Como um eco da dor universal!

Ó silêncio das coisas, é ouvindo
O próprio coração que te escutamos!
E as lágrimas das coisas vão caindo
… E somos nós que as choramos!

Sim, nós!… Quem sofre e chora, somos nós!
Um choro de cobardes e vencidos,
Nessa hora de sombra em que, transidos,
Olhamos em redor… e estamos sós!

Sós! Todos sós! Ó almas solitárias,
Vede a tristeza da tarde!
É vendo-a que a noss’alma desolada
Se sente mais sòzinha, abandonada,
E o nosso coração é mais cobarde…

É vendo a claridade agonizar,
Como um olhar voluptuoso e triste,
Que sentimos subir-nos surdamente
Aos olhos o desejo de chorar
Baixinho, docemente,
Sobre o peito de alguém… que não existe!

E, quando sobre o mar
Cai a noite do céu pesadamente,
A gente, sem querer… põe-se a chorar!

MANUEL Fernandes LARANJEIRA (nasceu na Vila da Feira (Douro Litoral) a 17 de Agosto de 1877 e suicidou-se em Espinho a 22 de Fevereiro de 1912).

Ler do mesmo autor: A Tristeza de Viver; Vendo a Morte

 

A Tristeza de Viver – Manuel Laranjeira Fevereiro 22, 2008

Filed under: Manuel Laranjeira,poesia — looking4good @ 2:59 am

Ânsia de amar! oh ânsia de viver!
Uma hora só que seja, mas vivida
e satisfeita… e pode-se morrer
– porque se morre abençoando a vida!

Mas ess’hora suprema em que se vive
quanto possa sonhar-se de ventura
oh vida mentirosa, oh vida impura
esperei-a, esperei-a, e nunca a tive!

E quantos como em a desejaram!
E quantos como eu nunca tiveram
uma hora de amor como a sonharam!

Em quantos olhos tristes tenho eu lido
O desespero dos que não viveram
Esse sonho de amor incompreendido!

MANUEL Fernandes LARANJEIRA (nasceu na Vila da Feira (Douro Litoral) a 17 de Agosto de 1877 e suicidou-se em Espinho a 22 de Fevereiro de 1912).

 

VENDO A MORTE : – Manuel Laranjeira Fevereiro 22, 2006

Filed under: Manuel Laranjeira,poesia — looking4good @ 1:08 pm

Em tudo vejo a morte! e, assim, ao ver
que a vida já vem morta cruelmente
logo ao surgir, começo a compreender
como a vida se vive inutilmente…

Debalde (como um náufrago que sente,
vendo a morte, mais fúria de viver)
estendo os olhos mais avidamente
e as mãos prà vida… e ponho-me a morrer.

A morte! sempre a morte! em tudo a vejo
tudo ma lembra! e invade-me o desejo
de viver toda a vida que perdi…

E não me assusta a morte! Só me assusta
ter tido tanta fé na vida injusta
… e não saber sequer pra que a vivi!

Manuel Fernandes Laranjeira (n . São Martinho de Moselos, concelho de Vila da Feira, a 7 Nov 1876, m. Espinho (suicídio) a 22 Fev 1912)

 

Vendo a Morte – Manuel Laranjeira Setembro 17, 2005

Filed under: Manuel Laranjeira,poesia — looking4good @ 7:12 pm

Em tudo vejo a morte! e, assim, ao ver
que a vida já vem morta cruelmente
logo ao surgir, começo a compreender
como a vida se vive inutilmente…

Debalde (como um náufrago que sente,
vendo a morte, mais fúria de viver)
estendo os olhos mais avidamente
e as mãos prà vida… e ponho-me a morrer.

A morte! sempre a morte! em tudo a vejo
tudo ma lembra! e invade-me o desejo
de viver toda a vida que perdi…

E não me assusta a morte! Só me assusta
ter tido tanta fé na vida injusta
… e não saber sequer pra que a vivi!

Manuel Laranjeira (n. São Martinho de Moselos, Vila da Feira, 17 Set 1877 ; m. Espinho 1912)