Nothingandall

Just another WordPress.com weblog

3 Maio – Dia da Mãe em Portugal Maio 3, 2009

Filed under: Dia,Eugénio de Andrade,Mãe,poesia — looking4good @ 2:15 am

Em Portugal, o Dia da Mãe começou por ser festejado no dia 8 de Dezembro em homenagem a Nossa Senhora da Conceição, Padroeira de Portugal. No entanto, hoje em dia é celebrado no primeiro domingo do mês de Maio, ou seja hoje!

POEMA À MÂE

No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!

Olha – queres ouvir-me? –
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;

Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal…

Mas – tu sabes – a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade

 

Retrato de Minha Mãe – Enrique de Resende Setembro 16, 2008

Filed under: Enrique de Resende,Mãe,poesia,Unicepe — looking4good @ 12:08 am

A face que mimavas e dizias
ser o sonho de amor com que sonhavas,
se hoje ao mundo voltasses, não verias
aquela mesma face, que mimavas.

Mudou-se-me o destino, mal partias,
pois órfão do destino me deixavas,
e, na ronda das horas e dos dias,
tudo mais se mudou, porque mudavas.

Sucederam-se os anos… Envelheço,
mas, se a luz em meus olhos já rareia,
a mocidade nos teus olhos brilha.

Contemplo-te o retrato e me enterneço
− Tal é a distância que entre nós medeia,
que hoje pareces minha própria filha.

ENRIQUE DE RESENDE (n. em Cataguases, Minas Gerais a 13 de Agosto de 1899 – m. 16 de Setembro de 1973 no Rio de Janeiro).

Soneto extraído de «A Circulatura do Quadrado – Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.