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A Liga da Duquesa – Júlio Dantas Maio 25, 2009

Filed under: Júlio Dantas,poesia — looking4good @ 1:22 am

A senhora duquesa, uma beleza antiga,
de bastão de faiança, de cabelo empoado,
certo dia, ao descer do seu estufim dourado
sentiu desapertar-se o fecho de uma liga.

Corou. Quis apertá-lo (ao que o pudor obriga).
mas, voltou-se, olhou… Tinha o capelão ao lado.
Mais um passo e perdeu-se o laço desatado,
e rebentou na corte uma tremenda intriga.

Fizeram-se pregões. Marqueses, condes, tudo
procurava, roçando os calções de veludo
por baixo dos sofás, de joelhos pelo chão…

E quando já ninguém mais esperava – que surpresa! –
foi-se encontrar por fim a liga da duquesa
no livro de orações do padre capelão.

Júlio Dantas (nasceu em Lagos, 19 de Maio de 1876 – m. Lisboa, 25 de Maio de 1962)

Ler do mesmo autor A Luva; Soneto

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Soneto – Júlio Dantas Maio 19, 2007

Filed under: Júlio Dantas,poesia — looking4good @ 7:53 pm

Duas almas que tarde se encontraram,
Como as nossas, meu bem, e tantas mais,
Porque modo se tornaram tão iguais
Se em tão diversos meios se criaram?

Umas em berço de outro as embalaram,
Às outras a erva fez berços rurais:
E sendo de princípio desiguais,
Depois tão semelhantes se tornaram.

Há bem pouco prendemos nossas vidas,
Já cuidas de meu bem como teu bem,
Já meu mal de agora vais sofrendo:

E as nossas almas tão parecidas,
Como essas duas lágrimas que vêm
Por tuas faces de âmbar escorrendo.

Júlio Dantas (n. em Lagos a 19 de Maio de 1876 ; m. em 25 Maio de 1962)

Ler do mesmo autor : A luva

 

A luva – Júlio Dantas Maio 19, 2006

Filed under: Júlio Dantas,poesia — looking4good @ 9:52 pm

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Quatro meses depois dessa hora dolorida
voltei, já resignado e quase sem rancor,
ao ninho onde viveu aquele imenso amor
que foi o grande amor de toda a minha vida.

Compreendi, então – quanta imagem querida!-
que pode haver encanto e doçura na dor:
um perfume – era o teu – palpitava em redor;
dormia num sofá uma luva esquecida.

Uma luva e um perfume: é o que resta de ti,
dos beijos que te dei, do inferno que sofri,
do teu mentido amor de juras desleais.

Que fui eu, afinal, na tua vida intensa?
O perfume que voa e em que ninguém mais pensa,
a luva que se deixa e não se calça mais…

Júlio Dantas (n. em Lagos a 18 Maio de 1876 ; m. 25 Maio de 1962)

in A Circulatura do Quadrado Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa – Edições Unicepe 2004

 

O amor …

Filed under: Citação do dia,Júlio Dantas — looking4good @ 1:04 pm

“O amor nasce de quase nada e morre de quase tudo.”

Júlio Dantas (n. em Lagos a 18 Maio de 1876 ; m. 25 Maio de 1962)