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Porque o Fim de Um Caminho … – José Bento Novembro 17, 2008

Filed under: José Bento,poesia — looking4good @ 12:42 am
Caminho de Outono imagem daqui

Porque o fim de um caminho sempre me entregou
o limiar de outro caminho,
o verde de um campo ou de um corpo adolescente,
espero que regresse à minha voz
a luz que no primeiro dia a fecundou
e a terra que é o contorno dessa luz.

Porque espero ver crescer minhas mãos dessa terra
e de minhas mãos a água necessária à minha sede,
ergo de mim a noite residual do que vivi
e canto,
canto provocando a madrugada.

Porque outros entoarão meu requiem e outros cerrarão
minha pálpebras para defender meus olhos de suas lágrimas,
deixo essa glória aos outros
– e exalto o meu nascimento
e cada dia em que renasço e procuro
a boca ou o fruto onde se reflitam os meus lábios.

Porque, harmonizando-se no sangue o fogo e a água,
eu sou o fogo e a água:
por mim os cadáveres e quanto é feito de matéria dos cadáveres
libertar-se-ão em chamas, serão claridade
e chegarão a pão pela dádiva das cinzas,
a última dádiva, a total.

Poema extraído de «Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim»

JOSÉ BENTO de Almeida e Silva nasceu no concelho de Estarreja (distrito de Aveiro) a 17 de Novembro de 1932. É formado em Contabilidade pelo Instituto Comercial de Lisboa e estreou-se como poeta na revista literária «Árvore», em 1953, mas só em 1992 reuniu quase toda a sua obra poética no volume «Silabário». Atingiu notável prestígio como tradutor de poesia castelhana, actividade em que cumpre destacar a publicação de três colectâneas monumentais: «Antologia da Poesia Espanhola do Siglo de Oro» (2 vols), «Antologia da Poesia Espanhola das Origens ao Séc. XIX» (2001) e «Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea» (1985), tendo sido premiado e condecorado tanto em Portugal como em Espanha.

Soneto e nota biobibliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado – Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

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Porque o Fim de Um Caminho … – José Bento

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Caminho de Outono imagem daqui

Porque o fim de um caminho sempre me entregou
o limiar de outro caminho,
o verde de um campo ou de um corpo adolescente,
espero que regresse à minha voz
a luz que no primeiro dia a fecundou
e a terra que é o contorno dessa luz.

Porque espero ver crescer minhas mãos dessa terra
e de minhas mãos a água necessária à minha sede,
ergo de mim a noite residual do que vivi
e canto,
canto provocando a madrugada.

Porque outros entoarão meu requiem e outros cerrarão
minha pálpebras para defender meus olhos de suas lágrimas,
deixo essa glória aos outros
– e exalto o meu nascimento
e cada dia em que renasço e procuro
a boca ou o fruto onde se reflitam os meus lábios.

Porque, harmonizando-se no sangue o fogo e a água,
eu sou o fogo e a água:
por mim os cadáveres e quanto é feito de matéria dos cadáveres
libertar-se-ão em chamas, serão claridade
e chegarão a pão pela dádiva das cinzas,
a última dádiva, a total.

Poema extraído de «Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim»

JOSÉ BENTO de Almeida e Silva nasceu no concelho de Estarreja (distrito de Aveiro) a 17 de Novembro de 1932. É formado em Contabilidade pelo Instituto Comercial de Lisboa e estreou-se como poeta na revista literária «Árvore», em 1953, mas só em 1992 reuniu quase toda a sua obra poética no volume «Silabário». Atingiu notável prestígio como tradutor de poesia castelhana, actividade em que cumpre destacar a publicação de três colectâneas monumentais: «Antologia da Poesia Espanhola do Siglo de Oro» (2 vols), «Antologia da Poesia Espanhola das Origens ao Séc. XIX» (2001) e «Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea» (1985), tendo sido premiado e condecorado tanto em Portugal como em Espanha.

Soneto e nota biobibliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado – Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.