Nothingandall

Just another WordPress.com weblog

Última Vontade – João Penha Fevereiro 3, 2008

Filed under: João Penha,poesia — looking4good @ 1:12 am

O corpo num lençol e, assim metido
em minha mãe, donde nasci, a terra.
Nada do som do bronze, um som que aterra,
que descontenta um delicado ouvido.

Ninguém ouse soltar um só gemido
junto da cova que o meu corpo encerra;
longe, a minh’alma em outros mundos erra,
dêem-lhe a paz dum sempiterno olvido.

Nada de luto, de sanefas pretas;
onde eu fique, um recôndito jardim,
onde ela, a mais divina das Julietas,

se, por acaso, se lembrar de mim,
possa colher um ramo de violetas
com que inflore o seu peito de cetim.

JOÃO de Oliveira PENHA Fortuna nasceu em Braga a 29 de Janeiro de 1838 e aí morreu a 3 de Fevereiro de 1919. Começou por frequentar a faculdade de Teologia (1866), donde transitou para a de Direito, formando-se em 1873. Em Coimbra, dirigiu um jornal literário, «A Folha» (1868/73), que foi o berço da poesia parnasiana (realismo e idealismo). Com «Vinho e Fel», fez ressurgir o soneto, após o eclipse romântico, mas a sua poesia aliava ao culto da beleza e perfeição formal a frivolidade, a sátira mordaz e cínica, a ironia acerba de um estóico. Depois de formado, foi juiz ordinário do julgado da Sé de Braga (1874), redactor da revista literária «República das Letras» (Porto, 1875) e exerceu a advocacia na sua cidade natal. Mas aquele que tivera uma juventude boémia e dândi conheceu uma velhice de torturas físicas e morais. Só não morreu na mais completa miséria graças a uma pequena pensão vitalícia concedida quase aos 80 anos pelo presidente Bernardino Machado, seu camarada nos tempos de Coimbra, por proposta do deputado Jaime Cortesão.

(Soneto e nota biobliográfica extraída de «A Circulatura do Quadrado – Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004).

Anúncios
 

Última Vontade – João Penha

Filed under: João Penha,poesia — looking4good @ 1:12 am

O corpo num lençol e, assim metido
em minha mãe, donde nasci, a terra.
Nada do som do bronze, um som que aterra,
que descontenta um delicado ouvido.

Ninguém ouse soltar um só gemido
junto da cova que o meu corpo encerra;
longe, a minh’alma em outros mundos erra,
dêem-lhe a paz dum sempiterno olvido.

Nada de luto, de sanefas pretas;
onde eu fique, um recôndito jardim,
onde ela, a mais divina das Julietas,

se, por acaso, se lembrar de mim,
possa colher um ramo de violetas
com que inflore o seu peito de cetim.

JOÃO de Oliveira PENHA Fortuna nasceu em Braga a 29 de Janeiro de 1838 e aí morreu a 3 de Fevereiro de 1919. Começou por frequentar a faculdade de Teologia (1866), donde transitou para a de Direito, formando-se em 1873. Em Coimbra, dirigiu um jornal literário, «A Folha» (1868/73), que foi o berço da poesia parnasiana (realismo e idealismo). Com «Vinho e Fel», fez ressurgir o soneto, após o eclipse romântico, mas a sua poesia aliava ao culto da beleza e perfeição formal a frivolidade, a sátira mordaz e cínica, a ironia acerba de um estóico. Depois de formado, foi juiz ordinário do julgado da Sé de Braga (1874), redactor da revista literária «República das Letras» (Porto, 1875) e exerceu a advocacia na sua cidade natal. Mas aquele que tivera uma juventude boémia e dândi conheceu uma velhice de torturas físicas e morais. Só não morreu na mais completa miséria graças a uma pequena pensão vitalícia concedida quase aos 80 anos pelo presidente Bernardino Machado, seu camarada nos tempos de Coimbra, por proposta do deputado Jaime Cortesão.

(Soneto e nota biobliográfica extraída de «A Circulatura do Quadrado – Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004).

 

Última Vontade – João Penha

Filed under: João Penha,poesia — looking4good @ 1:12 am

O corpo num lençol e, assim metido
em minha mãe, donde nasci, a terra.
Nada do som do bronze, um som que aterra,
que descontenta um delicado ouvido.

Ninguém ouse soltar um só gemido
junto da cova que o meu corpo encerra;
longe, a minh’alma em outros mundos erra,
dêem-lhe a paz dum sempiterno olvido.

Nada de luto, de sanefas pretas;
onde eu fique, um recôndito jardim,
onde ela, a mais divina das Julietas,

se, por acaso, se lembrar de mim,
possa colher um ramo de violetas
com que inflore o seu peito de cetim.

JOÃO de Oliveira PENHA Fortuna nasceu em Braga a 29 de Janeiro de 1838 e aí morreu a 3 de Fevereiro de 1919. Começou por frequentar a faculdade de Teologia (1866), donde transitou para a de Direito, formando-se em 1873. Em Coimbra, dirigiu um jornal literário, «A Folha» (1868/73), que foi o berço da poesia parnasiana (realismo e idealismo). Com «Vinho e Fel», fez ressurgir o soneto, após o eclipse romântico, mas a sua poesia aliava ao culto da beleza e perfeição formal a frivolidade, a sátira mordaz e cínica, a ironia acerba de um estóico. Depois de formado, foi juiz ordinário do julgado da Sé de Braga (1874), redactor da revista literária «República das Letras» (Porto, 1875) e exerceu a advocacia na sua cidade natal. Mas aquele que tivera uma juventude boémia e dândi conheceu uma velhice de torturas físicas e morais. Só não morreu na mais completa miséria graças a uma pequena pensão vitalícia concedida quase aos 80 anos pelo presidente Bernardino Machado, seu camarada nos tempos de Coimbra, por proposta do deputado Jaime Cortesão.

(Soneto e nota biobliográfica extraída de «A Circulatura do Quadrado – Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004).