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A Mulher e a Casa – João Cabral de Nelo Neto Janeiro 9, 2009

Filed under: João Cabral de Melo Neto,painting,poesia — looking4good @ 1:34 am

“Autumn in the Ozarks”, c. 1940; oil/canvasboard, 10″ x 8″
Olive Holbert Chaffee (b. Jan. 9, 1886 in Woodville, Kentucky; d. 1980)

Tua sedução é menos
de mulher do que de casa;
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.

in 366 poemas que falam de amor, uma antologia organizada por Vasco Graça Moura, Quetzal Editores.

João Cabral de Melo Neto (n. Recife, Pernambuco em 9 Jan 1920; m. Rio de Janeiro, 9 Out 1999).
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Num monumento à aspirina – João Cabral de Melo Neto Janeiro 9, 2008

Filed under: João Cabral de Melo Neto — looking4good @ 2:28 am

Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.

*

Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.

João Cabral de Melo Neto (n. Recife, Pernambuco em 9 Jan 1920; m. Rio de Janeiro, 9 Out 1999)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Mulher Sentada
Luto no Sertão
Tecendo a manhã

 

Num monumento à aspirina – João Cabral de Melo Neto

Filed under: João Cabral de Melo Neto — looking4good @ 2:28 am

Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.

*

Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.

João Cabral de Melo Neto (n. Recife, Pernambuco em 9 Jan 1920; m. Rio de Janeiro, 9 Out 1999)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Mulher Sentada
Luto no Sertão
Tecendo a manhã

 

Num monumento à aspirina – João Cabral de Melo Neto

Filed under: João Cabral de Melo Neto — looking4good @ 2:28 am

Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.

*

Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.

João Cabral de Melo Neto (n. Recife, Pernambuco em 9 Jan 1920; m. Rio de Janeiro, 9 Out 1999)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Mulher Sentada
Luto no Sertão
Tecendo a manhã

 

O luto no Sertão – João Cabral de Melo Neto Outubro 9, 2005

Filed under: João Cabral de Melo Neto,poesia — looking4good @ 5:05 pm

Pelo sertão não se tem como
não se viver sempre enlutado;
lá o luto não é de vestir,
é de nascer com, luto nato.

Sobe de dentro, tinge a pele
de um fosco fulo: é quase raça;
luto levado toda a vida
e que a vida empoeira e desgasta.

E mesmo o urubu que ali exerce,
negro tão puro noutras praças,
quando no sertão usa a batina
negra-fouveiro, pardavasca.

João Cabral de Melo Neto (n. Recife, Pernambuco em 9 Jan 1920; m. Rio de Janeiro, 9 Out 1999)