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Inverno – Francisca Júlia Agosto 31, 2008

Filed under: Francisca Júlia,Inverno,poesia — looking4good @ 12:48 am
Winter in het dorp (Winter in the village) by Willem Maris (1844-110)

Outrora, quanta vida e amor nestas formosas
ribas! Quão verde e fresca esta planície, quando,
debatendo-se no ar, os pássaros, em bando,
o ar enchiam de sons e queixas misteriosas!

Tudo era vida e amor. As árvores copiosas
mexiam-se, de manso, ao resfôlego brando
da brisa que passava em tudo derramando
o perfume subtil dos cravos e das rosas…

Mas veio o Inverno; e vida e amor foram-se em breve…
O ar se encheu de rumor e de uivos desolados…
As árvores do campo, enroupadas de neve,

sob o látego atroz da invernia, que corta,
são esqueletos que, de braços levantados,
vão pedindo socorro à primavera morta.

FRANCISCA JÚLIA da Silva Münster nasceu em Xiririca, hoje Eldorado (SP) a 31 de Agosto de 1871 e faleceu em São Paulo a 1 de Novembro de 1920. Professora e poetisa, a sua obra é o mais acabado exemplo de parnasianismo: impassibilidade, desinteresse pelo mundo interior, esmero da linguagem, busca de precisão, rigor da métrica, rimas ricas e raras, procura de achados formais; a sua poesia descritiva, paisagística e naturista, eivada de um certo panteísmo, era objectiva, nítida e fria. Agripino Grieco classificou-a mordazmente como «uma groenlandesa extraviada nos trópicos». Quando casou, em 1909, abandonou praticamente toda a actividade literária, mas crente em doutrinas esotéricas e possuída de um pensamento místico, evoluía para um simbolismo melancólico. Morreu, em circunstâncias pouco claras, no próprio dia em que o marido ia a enterrar. Excessiva dose de narcótico? Voluntária ou acidental?
Soneto e Nota biobliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado – Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.
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Inverno – Francisca Júlia

Filed under: Francisca Júlia,Inverno,poesia — looking4good @ 12:48 am
Winter in het dorp (Winter in the village) by Willem Maris (1844-110)

Outrora, quanta vida e amor nestas formosas
ribas! Quão verde e fresca esta planície, quando,
debatendo-se no ar, os pássaros, em bando,
o ar enchiam de sons e queixas misteriosas!

Tudo era vida e amor. As árvores copiosas
mexiam-se, de manso, ao resfôlego brando
da brisa que passava em tudo derramando
o perfume subtil dos cravos e das rosas…

Mas veio o Inverno; e vida e amor foram-se em breve…
O ar se encheu de rumor e de uivos desolados…
As árvores do campo, enroupadas de neve,

sob o látego atroz da invernia, que corta,
são esqueletos que, de braços levantados,
vão pedindo socorro à primavera morta.

FRANCISCA JÚLIA da Silva Münster nasceu em Xiririca, hoje Eldorado (SP) a 31 de Agosto de 1871 e faleceu em São Paulo a 1 de Novembro de 1920. Professora e poetisa, a sua obra é o mais acabado exemplo de parnasianismo: impassibilidade, desinteresse pelo mundo interior, esmero da linguagem, busca de precisão, rigor da métrica, rimas ricas e raras, procura de achados formais; a sua poesia descritiva, paisagística e naturista, eivada de um certo panteísmo, era objectiva, nítida e fria. Agripino Grieco classificou-a mordazmente como «uma groenlandesa extraviada nos trópicos». Quando casou, em 1909, abandonou praticamente toda a actividade literária, mas crente em doutrinas esotéricas e possuída de um pensamento místico, evoluía para um simbolismo melancólico. Morreu, em circunstâncias pouco claras, no próprio dia em que o marido ia a enterrar. Excessiva dose de narcótico? Voluntária ou acidental?
Soneto e Nota biobliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado – Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.