Nothingandall

Just another WordPress.com weblog

Retrospecto – Humberto de Campos Outubro 25, 2008

Filed under: Humberto de Campos,poesia — looking4good @ 6:50 pm

Vinte e seis anos, trinta amores: trinta
vezes a alma de sonhos fatigada.
e, ao fim de tudo, como ao fim de cada
amor, a alma de amor sempre faminta!

Ó mocidade que foges! brada
aos meus ouvidos teu futuro, e pinta
aos meus olhos mortais, com toda a tinta,
os remorsos da vida dissipada!

Derramo os olhos por mim mesmo… E, nesta
muda consulta ao coração cansado,
que é que vejo? que sinto? que me resta?

Nada: ao fim do caminho percorrido,
o ódio de trinta vezes ter jurado
e o horror de trinta vezes ter mentido!

Humberto de Campos Veras nasceu em Miritiba (MA) a 25 de Outubro de 1886 e morreu tuberculoso no Rio de Janeiro a 5 de Dezembro de 1934. Órfão aos 6 anos, passou uma infância e uma juventude atribuladas: marçano numa casa de miudezas da sua terra natal, caixeiro num armazém de secos e molhados em São Luís do Maranhão, empregado num seringal do Amazonas aos 17 anos, jornalista em Belém do Pará (sucessivamente redactor, secretário de redacção e director do jornal «A Província», fez largas digressões pelo interior do Brasil). De todas estas andanças, obteve uma rica experiência de vida. Acabou por se fixar no Rio, onde depressa se tornou no cronista brasileiro mais popular de sempre (chegava a escrever 4 ou 5 crónicas por dia, que, reunidas, deram dez volumes). Autodidacta, o seu talento congénito, aliado à perseverança, levaram-no a ser eleito «príncipe dos prosadores brasileiros». Mas estreara-se, em 1911, com um livro de versos, «Poeira» e, em 1933, reuniu as suas «Poesias Completas» (1904 a 1931). Mais conhecido, porém, como prosador, além de cronista, foi contista, crítico literário e memorialista. As suas obras completas contam mais de trinta volumes.


Soneto extraído daqui. Nota biobibliográfica extraída de «A Circulatura do Quadrado – Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

Ler neste blog, do mesmo autor: Dor, Tuas Cartas rasguei ; Semente do Deserto; No trem

Anúncios
 

Retrospecto – Humberto de Campos

Filed under: Humberto de Campos,poesia — looking4good @ 6:50 pm

Vinte e seis anos, trinta amores: trinta
vezes a alma de sonhos fatigada.
e, ao fim de tudo, como ao fim de cada
amor, a alma de amor sempre faminta!

Ó mocidade que foges! brada
aos meus ouvidos teu futuro, e pinta
aos meus olhos mortais, com toda a tinta,
os remorsos da vida dissipada!

Derramo os olhos por mim mesmo… E, nesta
muda consulta ao coração cansado,
que é que vejo? que sinto? que me resta?

Nada: ao fim do caminho percorrido,
o ódio de trinta vezes ter jurado
e o horror de trinta vezes ter mentido!

Humberto de Campos Veras nasceu em Miritiba (MA) a 25 de Outubro de 1886 e morreu tuberculoso no Rio de Janeiro a 5 de Dezembro de 1934. Órfão aos 6 anos, passou uma infância e uma juventude atribuladas: marçano numa casa de miudezas da sua terra natal, caixeiro num armazém de secos e molhados em São Luís do Maranhão, empregado num seringal do Amazonas aos 17 anos, jornalista em Belém do Pará (sucessivamente redactor, secretário de redacção e director do jornal «A Província», fez largas digressões pelo interior do Brasil). De todas estas andanças, obteve uma rica experiência de vida. Acabou por se fixar no Rio, onde depressa se tornou no cronista brasileiro mais popular de sempre (chegava a escrever 4 ou 5 crónicas por dia, que, reunidas, deram dez volumes). Autodidacta, o seu talento congénito, aliado à perseverança, levaram-no a ser eleito «príncipe dos prosadores brasileiros». Mas estreara-se, em 1911, com um livro de versos, «Poeira» e, em 1933, reuniu as suas «Poesias Completas» (1904 a 1931). Mais conhecido, porém, como prosador, além de cronista, foi contista, crítico literário e memorialista. As suas obras completas contam mais de trinta volumes.


Soneto extraído daqui. Nota biobibliográfica extraída de «A Circulatura do Quadrado – Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

Ler neste blog, do mesmo autor: Dor, Tuas Cartas rasguei ; Semente do Deserto; No trem

 

Dor – Humberto de Campos Dezembro 5, 2007

Filed under: Humberto de Campos,poesia — looking4good @ 2:10 am

“Há de ser uma estrada de amarguras
a tua vida. E andá-la-ás sozinho,
vendo sempre fugir o que procuras”
disse-me um dia um pálido advinho.

“No entanto, sempre hás de cantar venturas
que jamais encontraste… O teu caminho,
dirás que é cheio de alegrias puras,
de horas boas, de beijos, de carinho…”

E assim tem sido… Escondo os meus lamentos:
É meu destino suportar sorrindo
as desventuras e os padecimentos.

E no mundo hei de andar, neste desgosto,
a mentir ao meu íntimo, cobrindo
os sinais destas lágrimas no rosto!

Humberto de Campos (n. Miritiba,25 Out 1886; m. Rio de Janeiro, 5 Dez 1934)

Ler neste blog, do mesmo autor: Tuas Cartas rasguei ; Semente do Deserto; No trem

 

Semente do Deserto – Humberto de Campos Outubro 25, 2007

Filed under: Humberto de Campos,poesia — looking4good @ 8:00 pm

No alto sertão da minha terra
Cai, misteriosa, uma semente
Que a outras sementes move guerra.

onde ela nasce, de repente,
— Seara de mão cruel e ignota —
A relva murcha, suavemente.

E nas planícies onde brota,
E onde nem sempre é conhecida,
Toda a campina se desbota…

(Semente bárbara e remota,
Quem te semeou na minha vida?)

Humberto de Campos Veras (n. em Miritiba, hoje Humberto de Campos, MA, em 25 de Outubro de 1886; m. no Rio de Janeiro, RJ, em 5 de Dezembro de 1934).

Ler do mesmo autor neste blog Tuas cartas rasguei

 

No trem – Humberto de Campos Dezembro 5, 2005

Filed under: Humberto de Campos,poesia — looking4good @ 9:16 pm

Image Hosted by ImageShack.us
Foto “tirada” de Leste de Angola

O ano passado neste mês… É um dia
De grande sol. A máquina troveja,
Berra, fuma, atravessa em correria
A amarela paisagem

Vais a um canto do trem. A serrania
Foge aos poucos. A aragem te festeja
Voa, a brincar com o teu cabelo,e, fria,
leva-te, os olhos, trêfega te beija

Olho-te, mudo. Esquece-me a paisagem
Mas, anoitece e a líquida turquesa
Do mar nos diz que é terminada a viagem

Formam nuvens pelo ar, plumbeas refolhos
Cai de leve o crepúsculo… e a tristeza
Espalha outro crepúsculo em teus olhos.

Autor: Humberto de Campos (n. Miritiba, Maranhão, em 25.10.1886; m. Rio de Janeiro em 05 Dez 1934)
in Poesias Completas

 

No trem – Humberto de Campos

Filed under: Humberto de Campos,poesia — looking4good @ 9:16 pm


Foto “tirada” de Leste de Angola

O ano passado neste mês… É um dia
De grande sol. A máquina troveja,
Berra, fuma, atravessa em correria
A amarela paisagem

Vais a um canto do trem. A serrania
Foge aos poucos. A aragem te festeja
Voa, a brincar com o teu cabelo,e, fria,
leva-te, os olhos, trêfega te beija

Olho-te, mudo. Esquece-me a paisagem
Mas, anoitece e a líquida turquesa
Do mar nos diz que é terminada a viagem

Formam nuvens pelo ar, plumbeas refolhos
Cai de leve o crepúsculo… e a tristeza
Espalha outro crepúsculo em teus olhos.

Humberto de Campos (n. Miritiba, Maranhão, em 25.10.1886; m. Rio de Janeiro em 05 Dez 1934).

 

Tuas cartas rasguei … Humberto de Campos Outubro 25, 2005

Filed under: Humberto de Campos,poesia — looking4good @ 11:45 am

Tuas cartas rasguei uma por uma:
cento e catorze páginas e tiras
de juramentos, de promessas, em suma
de perfídias, de sonhos, de mentiras.

Mas… chorei ao rasgá-las! Tinha alguma
cousa a implorar nelas por ti; e as iras
foram-se e, agora, cólera nenhuma
neste peito haverá, por mais que o firas.

Eram mentiras, eu bem sei… No entanto,
cada rompida página era um cardo
que enterrava no peito em cada canto.

E eis porque, ajoelhado, após instantes,
os pedaços juntei… e agora os guardo
com mais amor do que os guardava dantes!

Humberto de Campos (n. Miritiba, 25 Out 1886; m. Rio de Janeiro, 5 Dez 1934)
in A Circulatura do Quadrado – Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa – Edições Unicepe – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, CRL, 2004