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Circuladô de Fulô – Haroldo de Campos (que nasceu há 79 anos) Agosto 19, 2008

Filed under: Haroldo de Campos,poesia — looking4good @ 12:37 am
circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie porque eu não posso guiá e viva quem já me deu circuladô de fulô e ainda quem falta me dá soando como um shamisen e feito apenas com um arame tenso um cabo e uma lata velha num fim de festafeira no pino do sol a pino mas para outros não existia aquela música não podia porque não podia popular aquela música se não canta não é popular se não afina não tintina não tarantina e no entanto puxada na tripa da miséria na tripa tensa da mais megera miséria física e doendo doendo como um prego na palma da mão um ferrugem prego cego na palma espalma da mão coração exposto como um nervo tenso retenso um renegro prego cego durando na palma polpa da mão ao sol enquanto vendem por magros cruzeiros aquelas cuias onde a boa forma é magreza fina da matéria mofina forma de fome o barro malcozido no choco do desgosto até que os outros vomitem os seus pratos plásticos de bordados rebordos estilo império para a negera niséria pois isto é popular para os patronos do povo mas o povo cria mas o povo engenha mas o povo cavila o povo é o inventalínguas na malícia da maestria no matreiro da maravilha no visgo do improviso tenteando a travessia azeitava o eixo do sol pois não tinha serventia metáfora pura ou quase o povo é o melhor artífice no seu martelo glopado no crivo do impossível no vivo do inviável no crisol do incrível do seu galope martelado e azeite e eixo do sol mas aquele fio aquele fio aquele gumefio azucrinado dentedoendo como um fio demente plangendo seu viúvo desacorde num ruivo brasa de uivo esfaima circuladô de fulô circuladô de fulô de fulôôô porque eu não posso guiá veja este livro material de consumo este aodeus aodemodarálivro que eu arrumo e desarrumo que eu uno e desuno vagagem de vagamundo na virada do mundo que deus que demo te guie então porque eu não posso não ouso não pouso não troço não toco não troco senão nos meus miúdos nos meus réis nos meus anéis nos meus dez nos meus menos nos meus nadas nas minhas penas nas antenas nas galenas nessas ninhas mais pequenas chamadas de ninharias como veremos verbenas açucares ou circunstâncias somenas tudo isso eu sei não conta tudo isso desaponta não sei mas ouça como canta louva como conta prova como dança e não peça que eu te guie mão peça despeça que eu te guie desguie que eu te peça promessa que eu te fie me deixa me esquece me larga ne desamarga que no fim eu acerto que no fim eu reverto que no fim eu conserto e para o fim me reservo e se verá que estou certo e se verá que tem jeito e se verá que está feito que pelo torto fiz direito que quem faz cesto faz cento se não guio não lamento pois o mestre que me ensinou já não dá ensinamento bagagem de miramundo na miragem do segundo que pelo avesso fui dextro sendo avesso pelo sestro não guio porque não guio porque não posso guiá e não me peça memento mas more no meu momento desmande meu mandamento e não fie desafie e não confie desfie que pelo sim pelo não para mim prefiro o não no senão do sim ponha o não no im de mim pomha o não o não será tua demão

Haroldo Eurico Browne de Campos (n. em São Paulo, a 19 de Agosto de 1929; m. a 16 de Agosto de 2003)

Ler do mesmo autor neste blog:
Soneto de Bodas

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Circuladô de Fulô – Haroldo de Campos (que nasceu há 79 anos)

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circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie porque eu não posso guiá e viva quem já me deu circuladô de fulô e ainda quem falta me dá soando como um shamisen e feito apenas com um arame tenso um cabo e uma lata velha num fim de festafeira no pino do sol a pino mas para outros não existia aquela música não podia porque não podia popular aquela música se não canta não é popular se não afina não tintina não tarantina e no entanto puxada na tripa da miséria na tripa tensa da mais megera miséria física e doendo doendo como um prego na palma da mão um ferrugem prego cego na palma espalma da mão coração exposto como um nervo tenso retenso um renegro prego cego durando na palma polpa da mão ao sol enquanto vendem por magros cruzeiros aquelas cuias onde a boa forma é magreza fina da matéria mofina forma de fome o barro malcozido no choco do desgosto até que os outros vomitem os seus pratos plásticos de bordados rebordos estilo império para a negera niséria pois isto é popular para os patronos do povo mas o povo cria mas o povo engenha mas o povo cavila o povo é o inventalínguas na malícia da maestria no matreiro da maravilha no visgo do improviso tenteando a travessia azeitava o eixo do sol pois não tinha serventia metáfora pura ou quase o povo é o melhor artífice no seu martelo glopado no crivo do impossível no vivo do inviável no crisol do incrível do seu galope martelado e azeite e eixo do sol mas aquele fio aquele fio aquele gumefio azucrinado dentedoendo como um fio demente plangendo seu viúvo desacorde num ruivo brasa de uivo esfaima circuladô de fulô circuladô de fulô de fulôôô porque eu não posso guiá veja este livro material de consumo este aodeus aodemodarálivro que eu arrumo e desarrumo que eu uno e desuno vagagem de vagamundo na virada do mundo que deus que demo te guie então porque eu não posso não ouso não pouso não troço não toco não troco senão nos meus miúdos nos meus réis nos meus anéis nos meus dez nos meus menos nos meus nadas nas minhas penas nas antenas nas galenas nessas ninhas mais pequenas chamadas de ninharias como veremos verbenas açucares ou circunstâncias somenas tudo isso eu sei não conta tudo isso desaponta não sei mas ouça como canta louva como conta prova como dança e não peça que eu te guie mão peça despeça que eu te guie desguie que eu te peça promessa que eu te fie me deixa me esquece me larga ne desamarga que no fim eu acerto que no fim eu reverto que no fim eu conserto e para o fim me reservo e se verá que estou certo e se verá que tem jeito e se verá que está feito que pelo torto fiz direito que quem faz cesto faz cento se não guio não lamento pois o mestre que me ensinou já não dá ensinamento bagagem de miramundo na miragem do segundo que pelo avesso fui dextro sendo avesso pelo sestro não guio porque não guio porque não posso guiá e não me peça memento mas more no meu momento desmande meu mandamento e não fie desafie e não confie desfie que pelo sim pelo não para mim prefiro o não no senão do sim ponha o não no im de mim pomha o não o não será tua demão

Haroldo Eurico Browne de Campos (n. em São Paulo, a 19 de Agosto de 1929; m. a 16 de Agosto de 2003)

Ler do mesmo autor neste blog:
Soneto de Bodas

 

Circuladô de Fulô – Haroldo de Campos (que nasceu há 79 anos)

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circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie porque eu não posso guiá e viva quem já me deu circuladô de fulô e ainda quem falta me dá soando como um shamisen e feito apenas com um arame tenso um cabo e uma lata velha num fim de festafeira no pino do sol a pino mas para outros não existia aquela música não podia porque não podia popular aquela música se não canta não é popular se não afina não tintina não tarantina e no entanto puxada na tripa da miséria na tripa tensa da mais megera miséria física e doendo doendo como um prego na palma da mão um ferrugem prego cego na palma espalma da mão coração exposto como um nervo tenso retenso um renegro prego cego durando na palma polpa da mão ao sol enquanto vendem por magros cruzeiros aquelas cuias onde a boa forma é magreza fina da matéria mofina forma de fome o barro malcozido no choco do desgosto até que os outros vomitem os seus pratos plásticos de bordados rebordos estilo império para a negera niséria pois isto é popular para os patronos do povo mas o povo cria mas o povo engenha mas o povo cavila o povo é o inventalínguas na malícia da maestria no matreiro da maravilha no visgo do improviso tenteando a travessia azeitava o eixo do sol pois não tinha serventia metáfora pura ou quase o povo é o melhor artífice no seu martelo glopado no crivo do impossível no vivo do inviável no crisol do incrível do seu galope martelado e azeite e eixo do sol mas aquele fio aquele fio aquele gumefio azucrinado dentedoendo como um fio demente plangendo seu viúvo desacorde num ruivo brasa de uivo esfaima circuladô de fulô circuladô de fulô de fulôôô porque eu não posso guiá veja este livro material de consumo este aodeus aodemodarálivro que eu arrumo e desarrumo que eu uno e desuno vagagem de vagamundo na virada do mundo que deus que demo te guie então porque eu não posso não ouso não pouso não troço não toco não troco senão nos meus miúdos nos meus réis nos meus anéis nos meus dez nos meus menos nos meus nadas nas minhas penas nas antenas nas galenas nessas ninhas mais pequenas chamadas de ninharias como veremos verbenas açucares ou circunstâncias somenas tudo isso eu sei não conta tudo isso desaponta não sei mas ouça como canta louva como conta prova como dança e não peça que eu te guie mão peça despeça que eu te guie desguie que eu te peça promessa que eu te fie me deixa me esquece me larga ne desamarga que no fim eu acerto que no fim eu reverto que no fim eu conserto e para o fim me reservo e se verá que estou certo e se verá que tem jeito e se verá que está feito que pelo torto fiz direito que quem faz cesto faz cento se não guio não lamento pois o mestre que me ensinou já não dá ensinamento bagagem de miramundo na miragem do segundo que pelo avesso fui dextro sendo avesso pelo sestro não guio porque não guio porque não posso guiá e não me peça memento mas more no meu momento desmande meu mandamento e não fie desafie e não confie desfie que pelo sim pelo não para mim prefiro o não no senão do sim ponha o não no im de mim pomha o não o não será tua demão

Haroldo Eurico Browne de Campos (n. em São Paulo, a 19 de Agosto de 1929; m. a 16 de Agosto de 2003)

Ler do mesmo autor neste blog:
Soneto de Bodas

 

Soneto de Bodas – Haroldo de Campos Agosto 16, 2006

Filed under: Haroldo de Campos,poesia — looking4good @ 2:43 pm

Luar de copas e marfins renhidos
tua nudez a riste contra o mar.
Violetas roucas sobre os teus soluços.
e rosas ténues e papoulas de ar.

Um novo deus conjura os vaticínios
e eu sorvo o mês, em taças, contra o mar.
Tua nudez orçada em meus espelhos
e rosas ténues e papoulas de ar.

Quem te ensinara o diapasão das noivas,
embevecido em lírios de ninar?
Ó Bem-Amada, quem te apascentara

nos mansos trigais desse apascentar?
Plumas de outono para as tuas bodas
que defloresces nos porões do mar.

Haroldo Eurico Browne de Campos (n. em S. Paulo a 19 Ago 1929; m. 16 Ago 2003)

 

Soneto de Bodas – Haroldo de Campos

Filed under: Haroldo de Campos,poesia — looking4good @ 2:43 pm

Luar de copas e marfins renhidos
tua nudez a riste contra o mar.
Violetas roucas sobre os teus soluços.
e rosas ténues e papoulas de ar.

Um novo deus conjura os vaticínios
e eu sorvo o mês, em taças, contra o mar.
Tua nudez orçada em meus espelhos
e rosas ténues e papoulas de ar.

Quem te ensinara o diapasão das noivas,
embevecido em lírios de ninar?
Ó Bem-Amada, quem te apascentara

nos mansos trigais desse apascentar?
Plumas de outono para as tuas bodas
que defloresces nos porões do mar.

Haroldo Eurico Browne de Campos (n. em S. Paulo a 20 Ago 1929; m. 16 Ago 2003)