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Repenso o teu sorriso… – Eugénio Montale Outubro 12, 2008

Filed under: Eugenio Montale,poesia — looking4good @ 5:03 am


Repenso o teu sorriso e é para mim como uma água límpida
retida por acaso entre as pedras de um rio,
exíguo espelho onde contemplas uma hera e seus corimbos;
e tudo sob o abraço de um branco céu tranqüilo.

Esta é a minha lembrança; não sei dizer, faz tanto tempo,
se de teu rosto surge livre uma alma ingênua,
ou se em verdade és dos errantes que o mal do mundo exaure
e o sofrimento carregam como um talismã.

Mas posso dizer-te isto, que teu rosto recordado
afoga a mágoa inconstante numa onda de calma,
e que tua figura se insinua em minha memória nevoenta
imaculada como a copa de uma jovem palmeira…

(tradução: Geraldo H. Cavalcanti)

Eugenio Montale (n. em Génova,Itália a 12 Outubro 1896; m. 12 Set. 1981 em Milão)

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Repenso o teu sorriso… – Eugénio Montale

Filed under: Eugenio Montale,poesia — looking4good @ 5:03 am


Repenso o teu sorriso e é para mim como uma água límpida
retida por acaso entre as pedras de um rio,
exíguo espelho onde contemplas uma hera e seus corimbos;
e tudo sob o abraço de um branco céu tranqüilo.

Esta é a minha lembrança; não sei dizer, faz tanto tempo,
se de teu rosto surge livre uma alma ingênua,
ou se em verdade és dos errantes que o mal do mundo exaure
e o sofrimento carregam como um talismã.

Mas posso dizer-te isto, que teu rosto recordado
afoga a mágoa inconstante numa onda de calma,
e que tua figura se insinua em minha memória nevoenta
imaculada como a copa de uma jovem palmeira…

(tradução: Geraldo H. Cavalcanti)

Eugenio Montale (n. em Génova,Itália a 12 Outubro 1896; m. 12 Set. 1981 em Milão)

 

The Lemons – Eugenio Montale Setembro 12, 2008

Filed under: Eugenio Montale,poetry — looking4good @ 12:24 am

Listen, the prize poets stroll
only among the trees
with uncommon names:
boxwood, privet, acanthus.
Me, I love roads that run out
among grassy ditches into
mud-puddles where kids
hunt skinny eels; lanes
that follow field-banks down
through beds of reeds and
end up in back gardens
among the lemon trees.

Best if the birds’ chatter-prattle
is hushed, swallowed up
by the blue: then you’ll hear
– clearer in the still air – the whisper
of companionable branches,
and catch a sense of that smell
that can’t tear itself from earth,
drenching you in edgy pleasure.
Here, by some miracle, the battle
between one distracting passion
and another dies down, and here
even we who are poor
pick up our share of wealth –
and it’s the scent of lemons.

Look, in these silences
which things sink into
and seem on the verge of
opening their closest secret,
you’d expect once in a while
to uncover some mistake
in nature, the world’s still point,
some weak link, the loose thread
that leads us at last
to the heart of truth. Eyes
rummage in every corner:
the mind seeks agrees argues
with itself in this perfume
that floats – as day fades –
over everything; a silence
in which, in every dwindling
human shadow, a troubled
divinity could be seen.

But the image fades, and time
takes us back to the din of cities
where you see the sky only
in bits and pieces, off up
among the chimneys. Rain then
wears the earth out, dreary winter
settles down around the houses,
light grows miserly, the soul bitter,
till one day, through a half-
shut gate, you see
among the trees in someone’s yard
the yellows of lemons –
and the heart’s ice melts,
and with their music
the golden trumpets of sunshine
blow your bones wide open.

Eugenio Montale (b. Oct 12, 1896, in Genoa, Italy – died on September 12, 1981).

Read also The Eel

 

OS LIMÕES – Eugénio Montale

Filed under: Eugenio Montale,poesia — looking4good @ 12:13 am


Escuta-me, os poetas laureados
circulam apenas entre plantas
de nomes pouco usados: buxeiros alienas ou acantos.
Eu, por mim, prefiro os caminhos que levam às valas
cheias de mato onde em lamaçais
já meio secos meninos apanham
alguma esquálida enguia:
as trilhas que bordejam os taludes descem por entre os tufos de caniços
e se metem nas hortas, entre os pés de limão.

Tanto melhor se a algazarra dos pássaros
se dissipa engolida pelo azul:
mais claro se escuta o sussurro
dos galhos amigos no ar que mal se move,
e as sensações deste cheiro
que não se larga da terra
e faz chover no peito uma doçura inquieta.
Aqui se cala por milagre
a guerra das desencontradas paixões,
aqui até a nós, os pobres, toca uma parcela de riqueza
e é o cheiro dos limões.

Vê, neste silêncio no qual as coisas
se entregam e parecem prestes
a trair o seu último segredo,
às vezes esperamos
descobrir um defeito da Natureza,
o ponto morto do mundo, o elo que não prende,
o fio a desenredar que enfim nos leve
ao centro de uma verdade.
O olhar perscruta em volta,
a mente indaga concerta desune
em meio ao perfume que se espalha
enquanto o dia enlanguesce.
São os silêncios em que se vê
em cada sombra humana que se afasta
alguma Divindade surpreendida.

Mas a ilusão se desfaz e o tempo nos devolve
à cidade ruidosa onde o azul mostra-se
apenas por retalhos, no alto, entre as cimalhas.
Castiga a chuva a terra, então; se espessa
o tédio do inverno sobre as casas,
a luz torna-se avara — a alma, amarga.
Quando um dia de um portão malfechado
entre as árvores de um pátio
nos surge o amarelo dos limões;
e no coração o gelo se dissolve,
e no peito estalam
suas canções
as trombetas de ouro da solaridade.

(tradução: Geraldo H. Cavalcanti)

Eugenio Montale (n. 12 Out 1896 em Génova, Itália; m. 12 Set. 1981 em Milão).

Ler do mesmo autor neste blog:
Desci um milhão de escadas
A Enguia

 

OS LIMÕES – Eugénio Montale

Filed under: Eugenio Montale,poesia — looking4good @ 12:13 am


Escuta-me, os poetas laureados
circulam apenas entre plantas
de nomes pouco usados: buxeiros alienas ou acantos.
Eu, por mim, prefiro os caminhos que levam às valas
cheias de mato onde em lamaçais
já meio secos meninos apanham
alguma esquálida enguia:
as trilhas que bordejam os taludes descem por entre os tufos de caniços
e se metem nas hortas, entre os pés de limão.

Tanto melhor se a algazarra dos pássaros
se dissipa engolida pelo azul:
mais claro se escuta o sussurro
dos galhos amigos no ar que mal se move,
e as sensações deste cheiro
que não se larga da terra
e faz chover no peito uma doçura inquieta.
Aqui se cala por milagre
a guerra das desencontradas paixões,
aqui até a nós, os pobres, toca uma parcela de riqueza
e é o cheiro dos limões.

Vê, neste silêncio no qual as coisas
se entregam e parecem prestes
a trair o seu último segredo,
às vezes esperamos
descobrir um defeito da Natureza,
o ponto morto do mundo, o elo que não prende,
o fio a desenredar que enfim nos leve
ao centro de uma verdade.
O olhar perscruta em volta,
a mente indaga concerta desune
em meio ao perfume que se espalha
enquanto o dia enlanguesce.
São os silêncios em que se vê
em cada sombra humana que se afasta
alguma Divindade surpreendida.

Mas a ilusão se desfaz e o tempo nos devolve
à cidade ruidosa onde o azul mostra-se
apenas por retalhos, no alto, entre as cimalhas.
Castiga a chuva a terra, então; se espessa
o tédio do inverno sobre as casas,
a luz torna-se avara — a alma, amarga.
Quando um dia de um portão malfechado
entre as árvores de um pátio
nos surge o amarelo dos limões;
e no coração o gelo se dissolve,
e no peito estalam
suas canções
as trombetas de ouro da solaridade.

(tradução: Geraldo H. Cavalcanti)

Eugenio Montale (n. 12 Out 1896 em Génova, Itália; m. 12 Set. 1981 em Milão).

Ler do mesmo autor neste blog:
Desci um milhão de escadas
A Enguia

 

A Enguia – Eugénio Montale Setembro 12, 2007

Filed under: Eugenio Montale,poesia — looking4good @ 7:43 pm

A enguia, a sereia
dos mares frios que abandona o Báltico
para alcançar os nossos litorais,
os nossos estuários, os rios
que remonta pelo fundo da corrente adversa
de braço em braço, depois
de cabelo em cabelo, adelgaçando,
cada vez mais dentro, sempre
mais no cioração da pedra, insinuando-se
entre o borbulhar do lodo até que um dia
a luz rompendo dos castanheiros
enche-a de chispas nos charcos de água morta,
das valas baixando
pelas escarpas dos Apeninos à Romanha;
a enguia, archote, látego,
flecha de Amor em terra
que só os nossos barrancos ou os secos riachos pirenaicos reconduzem
a paraísos de fecundação;
alma verde que procura
vida lá onde apenas
o andor morde a secura,
a cintilação que diz:
tudo começa quando já parece
carbonizar-se, tronco sepultado;
íris breve, gémea
daquela que engastam tuas pestanas
e fazes brilhar intacta entre os filhos
do homem, imersos no teu lodo – podes tu
não crer a tua irmã?

Trad. Eugénio de Andrade

in Rosa do Mundo – 2001 Poemas para o Futuro – Assírio & Alvim

Eugenio Montale (n. em Génova, Italia a 12 Outubro de 1896; m. em Milão a 12 Setembro 1981)

 

The Eel – Eugenio Montale

Filed under: Eugenio Montale,poetry — looking4good @ 6:18 am

The eel, the siren of
icy waters which leaves the Baltic
to reach our waters, reach
the estuaries, the rivers
deeply beneath whose hostile spate it mounts,
from branch to branch and then
from fibril to fibril, attenuated,
ever more inland, ever more into the heart
of limestone rock, worming
through troughs of slime until one day
a light slanting from chestnut boughs
ignites the slither in stagnant sumps,
in the ditches which descend
from the cliffs of the Apennines to the Romagna,
eel, torch and lash,
arrow of Love on earth
which only our gullies or seared
creeks of the Pyrenees conduct
to fertile paradises;
green soul which seeks
life there where
gnaw only drought and desolation,
the spark which says
all begins where all seems
charred to carbon, a sunken stump,
brief rainbow, twin
to what is brightly clasped in your jewel-eyes
and glows there undefiled among the sons
of men, bedded into your mud, can you
not believe her a sister?

If they have compared you
to the fox it’s for the prodigious
leap, for the scud of your feet
which unite and divide, which scuff
and freshen the gravel (your balcony,
the streets near the Cottolengo, the field,
the tree on which shivers my name,
happy, humble, and defeated)—or perhaps only
for the luminous wave which you shed
from your tender almond eyes,
for your quick astute amazements,
for the hurt
of torn feathers which your childlike hand
can give with one clasp;
if they have compared you
to a yellow carnivore, to the treacherous genius
of the undergrowth (and why not to the unclean
torpedo fish which jolts with a shock?)
it is perhaps because the blind did not see
the wings on your fine shoulder-blades,
because the blind did not unravel the omen
on your incandescent brow, the groove
which I have scratched there in blood, cross chrism
seduction jetsam promise goodbye
perdition and salvation; if they did not know
how to believe you more than weasel or woman,
with whom can I share my finding,
where shall I hide the gold I carry,
where the live coal which shrieks in me when
departing, you turn on the stairs?

Translated by Alan Marshfield

Eugenio Montale (b. in Genoa, Italy, on October 12, 1896; d. in Milan on September 12, 1981)