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Casa – David Mourão-Ferreira (no 13º. aniversário da morte do poeta) Junho 16, 2009

Filed under: David Mourão-Ferreira,poesia — looking4good @ 12:14 am

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão…

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.

Extraído de Cem Sonetos Portugueses, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar

David de Jesus Mourão-Ferreira (n. em Lisboa a 24 Fev. 1927; m. Lisboa a 16 Jun 1996)

Ler do mesmo autor:
E Por Vezes
Nocturno
Paraíso
Ternura
Labirinto
Penelope
Primavera
Equinócio

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E POR VEZES – David Mourão-Ferreira Fevereiro 24, 2009

Filed under: David Mourão-Ferreira,poesia — looking4good @ 2:44 am
Abraço imagem daqui

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

in Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim

David de Jesus Mourão-Ferreira (n. em Lisboa a 24 Fev. 1927;m. Lisboa a 16 Jun 1996)

Ler do mesmo autor:
Nocturno
Paraíso
Ternura
Labirinto
Penelope

 

Primavera – David Mourão-Ferreira Junho 16, 2008

Filed under: Amália Rodrigues,David Mourão-Ferreira,Fado,Musica,poesia — looking4good @ 1:16 am

David Mourão Ferreira morreu faz hoje doze anos. Lembrámo-lo aqui na voz de Amália Rodrigues a cantar o fado Primavera com poema de sua autoria.

Primavera

Todo o amor que nos prendera
Como se fora de cera
Se quebrava e desfazia
Ai funesta primavera
Quem me dera, quem nos dera
Ter morrido nesse dia

E condenaram-me a tanto
Viver comigo meu pranto
Viver, viver e sem ti
Vivendo sem no entanto
Eu me esquecer desse encanto
Que nesse dia perdi

Pão duro da solidão
É somente o que nos dão
O que nos dão a comer
Que importa que o coração
Diga que sim ou que não
Se continua a viver

Todo o amor que nos prendera
Se quebrara e desfizera
Em pavor se convertia
Ninguém fale em primavera
Quem me dera, quem nos dera
Ter morrido nesse dia

David Mourão- Ferreira

Ler outros poemas de David Mourão-Ferreira

 

Na passagem do 81º aniversário de David Mourão-Ferreira Fevereiro 24, 2008

Filed under: David Mourão-Ferreira,poesia — looking4good @ 4:08 am

Soneto do Cativo

Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante, a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!

David de Jesus Mourão-Ferreira (n. em Lisboa a 24 Fev. 1927; m. Lisboa a 16 Jun 1996)

David Mourão Ferreira foi o autor de muitos fados para Amália Rodrigues e que outros fadistas têm interpretado. Ouçamos aqui Mariza no fado Primavera

Primavera

Todo o amor que nos prendera,
como se fôra de cera
Se quebrava e desfazia.
:Ai funesta primavera
quem me dera quem nos dera
ter morrido nesse dia.:

E condenaram-me a tanto
viver comigo o meu pranto
viver, viver e sem ti
:Vivendo sem no entanto
eu me equecer desse encanto
que nesse dia perdi.:

Pão duro da solidão
é somente o que nos dão,
o que nos dão a comer.
Que importa que o coração
diga que sim ou que não,
se continua a viver.

Todo o amor que nos prendera
se quebrara e desifzera
em pavor se convertia
Ninguem fale em primavera
quem me dera quem nos dera
ter morrido nesse dia.

Ler do mesmo autor:
Equinócio
Nocturno
Paraíso
Presídio
Penélope
Ternura
Labirinto
E por vezes
Penelope

 

Na passagem do 81º aniversário de David Mourão-Ferreira

Filed under: David Mourão-Ferreira,poesia — looking4good @ 4:08 am

Soneto do Cativo

Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante, a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!

David de Jesus Mourão-Ferreira (n. em Lisboa a 24 Fev. 1927; m. Lisboa a 16 Jun 1996)

David Mourão Ferreira foi o autor de muitos fados para Amália Rodrigues e que outros fadistas têm interpretado. Ouçamos aqui Mariza no fado Primavera

Primavera

Todo o amor que nos prendera,
como se fôra de cera
Se quebrava e desfazia.
:Ai funesta primavera
quem me dera quem nos dera
ter morrido nesse dia.:

E condenaram-me a tanto
viver comigo o meu pranto
viver, viver e sem ti
:Vivendo sem no entanto
eu me equecer desse encanto
que nesse dia perdi.:

Pão duro da solidão
é somente o que nos dão,
o que nos dão a comer.
Que importa que o coração
diga que sim ou que não,
se continua a viver.

Todo o amor que nos prendera
se quebrara e desifzera
em pavor se convertia
Ninguem fale em primavera
quem me dera quem nos dera
ter morrido nesse dia.

Ler do mesmo autor:
Equinócio
Nocturno
Paraíso
Presídio
Penélope
Ternura
Labirinto
E por vezes
Penelope

 

Equinócio – David Mourão-Ferreira Junho 16, 2007

Filed under: David Mourão-Ferreira,poesia — looking4good @ 7:34 pm

Chega-se a este ponto em que se fica à espera
Em que apetece um ombro o pano de um teatro
um passeio de noite a sós de bicicleta
o riso que ninguém reteve num retrato

Folheia-se num bar o horário da Morte
Encomenda-se um gin enquanto ela não chega
Loucura foi não ter incendiado o bosque
Já não sei em que mês se deu aquela cena

Chega-se a este ponto Arrepiar caminho
Soletrar no passado a imagem do futuro
Abrir uma janela Acender o cachimbo
para deixar no mundo uma herança de fumo

Rola mais um trovão Chega-se a este ponto
em que apetece um ombro e nos pedem um sabre
Em que a rota do Sol é a roda do sono
Chega-se a este ponto em que gente não sabe

David de Jesus Mourão-Ferreira (n. em Lisboa a 24 Fev. 1927; m. Lisboa a 16 Jun 1996

(extraído de Os Poemas da Minha Vida – Urbano Tavares Rodrigues- Público
Ler do mesmo autor:
Nocturno
Paraíso
Ternura
Labirinto
E por vezes
Penelope

 

O livro que estou a ler Maio 25, 2007

Filed under: David Mourão-Ferreira,Jorge de Sena,poesia — looking4good @ 7:14 pm
-A minga amiga da Blogosfera Cristiane de Fragmentos de Mim lançou-me um desafio, em 21 de Maio, para falar “sobre o livro que esteja lendo de momento”. É o que me proponho fazer agora:

Confesso que não leio muita literatura. Romances, contos, novelas, não raro começo-os … e deixo-os ao meio. Alguma indisponibilidade minha provoca que … haja descontinuidade na leitura a exigir um esforço de recuperação quando se pretende retomar. E assim… Posso dizer que já tentei ler «Os Versículos Satânicos» de Salman Rushdie (para tentar perceber porque o condenaram à morte..) por umas dez vezes : desisti!

Por isso as minhas leituras nos últimos tempos são dirigidas ou orientadas para a poesia:

Porque cada poema tem a sua estanquicidade, é fácil ler um dois ou … dez, numa ocasião e não há necessidade de os reler para ler o segundo, o terceiro…ou o décimo-primeiro… do mesmo autor ou da mesma obra. Por isso, não pode haver indisponibilidade que justifique a não leitura de poesia.

Depois há:

– a musicalidade das palavras: há poemas que ao serem lidos ou ao serem ditos são como peças musicais!

– A transformação das emoções em palavras: quantas vezes encontro num poema aquilo que sinto naquele momento ou que já senti noutra ocasião. Vive-se frequentemente aquela sensação de «eu teria escrito isto se tivesse sido capaz» . Os poetas são os artistas que melhor sabem transcrever em palavras as emoções, os sentimentos! São os operários do espírito.

Um poema é como um quadro pintado sem tela. Penso que a poesia é a manifestação artística mais completa: É música, é a arquitectura das palavras, é pintura. Poesia é Natureza, é imaginação, fantasia e sonho! Capaz de nos transmitir a beleza duma rosa como a agrura agreste de um cardo!

Queridos amigos ou visitantes leiam poesia.

Neste momento que escrevo tenho dois livros na secretária:

Um é a “Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica” – selecção, prefácio e notas deNatália Correia- Edição Antígona : Dentro de um tema mais limitado, tem desde belos poemas de amor a poemas que nos deixam algo incomodados! «Próprio é da natureza humana aspirar ou saborear o extase que coroa a exaltação amorosa, sempre que pelo desejo, ou pela plenitude da realização, sublimando o objecto do desejo, tende numa feliz definição de Benjamim Pérez a «sexualizar o universo» » diz-se a certo passo do Prefácio.

A parte irónica e satírica vai da crítica social a «cantigas de mal-dizer». É interessante também pela sua perspectiva histórica porque engloba poemas recolhidos de várias épocas, quase desde que Portugal existe.

O outro é «Poemas de Amor» – antologia de poesia portuguesa – organização e prefácio de Inês Pedrosa , Publicações Dom Quixote.

Deixo-vos ficar com dois poemas de que gosto especialmente (e de que, por isso, já noutras ocasiões editei no blog) um de cada um das obras mencionadas:

TERNURA David Mourão-Ferreira

Desvio dos teus ombros o lençol
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada…

Olho a roupa no chão: que tempestade!
há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio…

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo…

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão Ferreira (incluído na primeira das obras indicadas)

Amo-te muito, meu amor, e tantoJorge de Sena

Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.

Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,

um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,

tão quase é coisa ou sucessão que passa…
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.

Jorge de Sena (incluido na Antologia Poemas de Amor)

Pois bem meus amigos e visitantes, tenham um belo fim de semana, com beijos, sorrisos, flores e … poesia!