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Mãe Preta – Ciro Costa (quando passam 130 anos sobre o seu nascimento) Março 18, 2009

Filed under: Ciro Costa,poesia — looking4good @ 1:22 am

Lúgubre, acaçapada, espiando no ermo, à beira
do açude da fazenda, a lua de opala,
com sussurros de reza ou rumores de feira,
via-se, num quadrado, a sordida senzala…

Sobre um velho jirau forrado de uma esteira,
ei-la, embalando ao colo – e com que amor na fala! –
o sinhozinho branco, a quem se dava, inteira,
até que, adulto, fosse, um dia, vergastá-la!

Sofre como ninguém! Com fervor nunca visto,
persignava-se ao ver céus azuis e montanhas:
Louvado seja Deus Nosso Sinhô – Suns Christo!

Na escravidão do amor, a criar filhos alheios,
rasgou, qual pelicano, as maternais entranhas,
e deu, à Pátria Livre, em holocausto, os seios!

Ciro Costa (n. em Limeira, São Paulo a 18 de Março de 1879; m. no Rio de Janeiro a 22 de Maio de 1937).

Ler do mesmo autor Pai João

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Pai João – Ciro Costa Maio 22, 2007

Filed under: Ciro Costa,poesia — looking4good @ 6:00 pm

Do taquaral à sombra, em solitária furna,
(para onde, com tristeza, o olhar, curioso, alongo),
sonha o negro, talvez, na solidão noturna,
com os límpidos areais das solidões do Congo…

Ouve-lhe a noite a voz nostálgica e soturna,
num suspiro de amor, num murmurejo longo…
E o rouco, surdo som, zumbindo na cafurna,
é o urucungo a gemer na cadência do jongo…

Bendito sejas tu, a quem, certo, devemos
a grandeza real de tudo quanto temos!
Sonha em paz! Sê feliz! E que eu fique de joelhos,

sob o fúlgido céu, a relembrar, magoado,
que os frutos do café são glóbulos vermelhos
do sangue que escorreu do negro escravizado!

Ciro Costa (n. em Limeira, São Paulo a 18 de Março de 1879; m. nio Rio de Janeiro a 22 de Maio de 1937).