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Na Cidade Nasci – Carlos Queiroz Outubro 27, 2008

Filed under: Carlos Queiroz,poesia — looking4good @ 1:39 am

Na cidade, quem olha para o céu?
É preciso que passe o avião…
Quem me dera o silêncio, a solidão,
Onde pudesse, alguma vez, ser eu!

Na cidade nasci; nela nasceu
A minha dispersiva inquietação;
E o meu tumultuoso coração
Tem o pulsar caótico do seu.

A! Quem me dera, em vez de gasolina,
O cheiro da terra húmida, a resina,
A flores do campo, a leite, a maresia!

Em vez da fria luz que me alumia,
O luar sobre o mar, em tremulina…
– Divina mão compondo uma poesia.

José Carlos Queiroz Nunes Ribeiro (n. Lisboa em 5 de Abr 1907, m. Paris, 27 Out 1949)

Do mesmo autor leia:
Apelo à Poesia
Uma história vulgar
Amizade
Pastoral
LIBERA-ME
Canção Grata
Desaparecido

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Apelo à Poesia – Carlos Queirós Outubro 27, 2007

Filed under: Carlos Queiroz,poesia — looking4good @ 8:00 pm

Porque vieste? – Não chamei por ti!
Era tão natural o que eu pensava,
(Nem triste, nem alegre, de maneira
Que pudesse sentir a tua falta…)
E tu vieste,
Como se fosses necessária!

Poesia! nunca mais venhas assim:
Pé ante pé, cobardemente oculta
Nas ideias mais simples,
Nos mais ingénuos sentimentos:
Um sorriso, um olhar, uma lembrança…
– Não sejas como o Amor!

É verdade que vens, como se fosses
uma parte de mim que vive longe,
Presa ao meu coração
Por um elo invisível;
Mas não regresses mais sem que eu te chame,
– Não sejas como a Saudade!

De súbito, arrebatas-me, através
De zonas espectrais, de ignotos climas;
E, quando desço à vida, já não sei
Onde era o meu lugar…
Poesia! nunca mais venhas assim
– Não sejas como a Loucura!

Embora a dor me fira, de tal modo
Que só as tuas mãos saibam curar-me,
Ou ninguém, se não tu, possa entender
O meu contentamento…
Não venhas nunca mais sem que eu te chame,
– Não sejas como a Morte!

José Carlos Queiroz Nunes Ribeiro (n. Lisboa em 5 de Abr 1907, m. Paris, 27 Out 1949)

Do mesmo autor leia:
Uma história vulgar
Amizade
Pastoral
LIBERA-ME
Canção Grata
Desaparecido

 

Uma História Vulgar – Carlos Queiroz Abril 5, 2007

Filed under: Carlos Queiroz,poesia — looking4good @ 4:13 pm

Ouvir a tua voz, outrora, era o bastante
Para sentir, enfim, justificada, a vida;
E supor que podia, a partir desse instante,
Abrir, impunemente, ao mundo, confiante,
Minh’alma enternecida.

Fitar o teu olhar, era um deslumbramento,
Que me transfigurava e me fazia crer
Que depois de viver, na terra, esse momento,
– Sereno, como após o extremo sacramento -,
Já podia morrer.

Premia as tuas mãos nas minhas e dizia,
Com profunda emoção: – É só por ti que existo!
– Como foi isto, amor? Do nosso olhar, um dia,
Caiu neve no fogo em que a minh’alma ardia…
Amor, como foi isto?!

Passas por mim, agora, e nada me insinua
Ser a tua presença o derradeiro elo
Que me prendia à vida. – E a vida continua!
E tudo, como outrora, (o sol, o mar, a lua…)
Mesmo sem ti, é belo!

Como havemos de ter, nos outros, confiança?
Que humano sentimento a nossa fé merece?
De que servem, na vida, os ideais e a esperança,
Se o próprio Amor, — como os brinquedos, em criança –,
Tão cedo, para nós, perde o encanto e esquece?!

José Carlos Queiroz Nunes Ribeiro (n. Lisboa 5 Abr 1907, m. Paris, 27 Out 1949)

Do mesmo autor leia:
Amizade
Pastoral
LIBERA-ME
Canção Grata
Desaparecido

 

Amizade – Carlos Queirós Novembro 27, 2006

Filed under: Carlos Queiroz,poesia — looking4good @ 1:17 pm

De mais ninguém, senão de ti preciso:
Do teu sereno olhar, do teu sorriso,
Da tua mão pousada no meu ombro.
Ouvir-te murmurar: – «Espera e confia!»
E sentir converter-se em harmonia,
O que era, dantes, confusão e assombro.

Carlos Queirós

in 366 poemas que falam de amor,
antologia organizada por Vasco da Graça Moura
Quetzal Editores

Ler do mesmo autor neste blog Pastoral

 

Pastoral – Carlos Queiroz Outubro 27, 2006

Filed under: Carlos Queiroz,poesia — looking4good @ 12:48 pm

Por ser tão leve o teu passar
Na estrada, à tarde, quando vens
De pôr o gado que não tens,
A pastar…

Por ser tão brando o teu sorrir,
Tão cheio de feliz regresso
Do longo prado, onde apeteço
Contigo ir…

Por ser tão breve o teu querer
Alguém que perto de ti passe
E, porque a tarde cai, te abrace.
Sem nada te dizer…

Por ser tão calmo o teu sonhar
Que já é tempo de não ter
Esse rebanho de pascer,
Mas outro de amamentar…

É que eu me perco no caminho
Do grande sonho sem janelas,
De estar contigo no moinho,
Sem o moleiro nem as velas.

José Carlos Queiroz Nunes Ribeiro (n. Lisboa 5 Abr 1907, m. Paris, 27 Out 1949)

Do mesmo autor leia:
LIBERA ME
Canção Grata
Desaparecido

 

Desaparecido – Carlos Queiroz Outubro 27, 2005

Filed under: Carlos Queiroz,poesia — looking4good @ 11:06 am

Sempre que leio nos jornais:
“De casa de seus pais desapar’ceu…”
Embora sejam outros os sinais,
Suponho sempre que sou eu.

Eu, verdadeiramente jovem,
Que por caminhos meus e naturais,
Do meu veleiro, que ora os outros movem,
Pudesse ser o próprio arrais.

Eu, que tentasse errado norte;
Vencido, embora, por contrário vento,
Mas desprezasse, consciente e forte,
O porto de arrependimento.

Eu, que pudesse, enfim, ser eu!
– Livre o instinto, em vez de coagido.
“De casa de seus pais desapar’ceu…”
Eu, o feliz desapar’cido!

Carlos Queiroz (n. Lisboa 5 Abr 1907, m. Paris, 27 Out 1949)
in Rosa do Mundo – 2001 Poemas para o Futuro – 3ª Edição
Porto 2001 Capital Europeia da Cultura – Assírio & Alvim

Do mesmo autor leia:
LIBERA ME
Canção Grata

 

Canção Grata – Carlos Queiroz

Filed under: Carlos Queiroz,poesia — looking4good @ 10:32 am

Por tudo o que me deste:
– Inquietação, cuidado,
(Um pouco de ternura? É certo, mas tão pouco!)
Noites de insónia, pelas ruas, como um louco…
– Obrigado! Obrigado!

Por aquela tão doce e tão breve ilusão.
(Embora nunca mais, depois que a vi desfeita,
Eu volte a ser quem fui), sem ironia: aceita
A minha gratidão!

Que bem me faz, agora, o mal que me fizeste!
– Mais forte, mais sereno, e livre, e descuidado…
Sem ironia, amor: – Obrigado, obrigado
Por tudo o que me deste!

Carlos Queiroz (n. Lisboa 5 Abr 1907; m. 27 Out 1949), “Canção Grata” in Poemas de Amor – Antologia de Poesia Portuguesa (org. e prefácio Inês Pedrosa), 6ª edição, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2003, pág. 133.