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A língua lambe – Carlos Drummond de Andrade Outubro 31, 2008

Filed under: Carlos Drummond de Andrade,poesia — looking4good @ 2:43 am

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.
E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos

Carlos Drummond de Andrade (n. em Itabira (Minas Gerais) a 31 de Out. de 1902; m. no Rio de Janeiro, a 17 de Ago de 1987)

Ler do mesmo autor neste blog: Quero; O amor antigo; Indagação; Amar; Quarto em desordem

 

Além da Terra, além do Céu – Carlos Drummond de Andrade Agosto 17, 2008

Filed under: Carlos Drummond de Andrade,poesia — looking4good @ 3:29 am

Na passagem do 21º. aniversário do desaparecimento do poeta

Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.

Carlos Drummond de Andrade (n. Itabira, 31 de Outubro de 1902 — m. Rio de Janeiro, 17 de Agosto de 1987).

 

A Falta de Érico – Carlos Drummond de Andrade Dezembro 17, 2007

Filed under: Carlos Drummond de Andrade,Erico Veríssimo — looking4good @ 12:03 pm
Por ocasião da morte de Erico Veríssimo, que faleceu em 17 de Dez. 1975 (n. 1905).

Falta alguma coisa no Brasil
depois da noite de Sexta-feira
Falta aquele homem no escritório
a tirar da máquina elétrica
o destino dos seres,
a explicação antiga da terra.

Falta uma tristeza de menino bom
caminhando entre adultos
na esperança da justiça
que tarda – como tarda!
a clarear o mundo.

Falta um boné, aquele jeito manso,
aquela ternura contida, óleo
a derramar-se lentamente,
falta o casal passeando no trigal.

Falta um solo de clarineta.

Carlos Drummond de Andrade

“Três meses, depois quando o exército dos Sete Povos já havia sido completamente desbaratado numa batalha campal, e os habitantes do povo de Alonzo, desesperados, prendiam fogo à catedral e às casas, para que elas não caíssem inatas nas mãos do inimigo vitorioso que se aproximava – Pedro montou num cavalo baio e, levando consigo apenas a roupa do corpo, a chirimia e o punhal de prata, fugiu a todo galope na direção do grande rio…” in O Continente – falando do personagem Pedro Missioneiro.

Erico Veríssimo

 

A hora do cansaço – Carlos Drummond de Andrade Outubro 31, 2007

Filed under: Carlos Drummond de Andrade,poesia — looking4good @ 1:39 am

Cabeça, c. 1910.
Guilherme Santa-Rita ( Santa-Rita Pintor)
(n. Lisboa, 31.Out. 1889; m. Lisboa a 29 de Abril de 1918)

As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nós cansamos, por um outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho de eterno fica esse gosto ocre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

Carlos Drummond de Andrade (n. em Itabira (Minas Gerais) a 31 de Out. de 1902; m. no Rio de Janeiro, a 17 de Ago de 1987)

Ler do mesmo autor neste blog: Quero; O amor antigo; Indagação; Amar; Quarto em desordem

 

A hora do cansaço – Carlos Drummond de Andrade

Filed under: Carlos Drummond de Andrade,poesia — looking4good @ 1:39 am

Cabeça, c. 1910.
Guilherme Santa-Rita ( Santa-Rita Pintor)
(n. Lisboa, 31.Out. 1889; m. Lisboa a 29 de Abril de 1918)

As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nós cansamos, por um outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho de eterno fica esse gosto ocre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

Carlos Drummond de Andrade (n. em Itabira (Minas Gerais) a 31 de Out. de 1902; m. no Rio de Janeiro, a 17 de Ago de 1987)

Ler do mesmo autor neste blog: Quero; O amor antigo; Indagação; Amar; Quarto em desordem

 

A hora do cansaço – Carlos Drummond de Andrade

Filed under: Carlos Drummond de Andrade,poesia — looking4good @ 1:39 am

Cabeça, c. 1910.
Guilherme Santa-Rita ( Santa-Rita Pintor)
(n. Lisboa, 31.Out. 1889; m. Lisboa a 29 de Abril de 1918)

As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nós cansamos, por um outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho de eterno fica esse gosto ocre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

Carlos Drummond de Andrade (n. em Itabira (Minas Gerais) a 31 de Out. de 1902; m. no Rio de Janeiro, a 17 de Ago de 1987)

Ler do mesmo autor neste blog: Quero; O amor antigo; Indagação; Amar; Quarto em desordem

 

A hora do cansaço – Carlos Drummond de Andrade

Filed under: Carlos Drummond de Andrade,poesia — looking4good @ 1:39 am

Cabeça, c. 1910.
Guilherme Santa-Rita ( Santa-Rita Pintor)
(n. Lisboa, 31.Out. 1889; m. Lisboa a 29 de Abril de 1918)

As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nós cansamos, por um outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho de eterno fica esse gosto ocre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

Carlos Drummond de Andrade (n. em Itabira (Minas Gerais) a 31 de Out. de 1902; m. no Rio de Janeiro, a 17 de Ago de 1987)

Ler do mesmo autor neste blog: Quero; O amor antigo; Indagação; Amar; Quarto em desordem

 

Quarto em Desordem – Drummond de Andrade Agosto 17, 2007

Filed under: Carlos Drummond de Andrade,poesia — looking4good @ 1:26 am

Na curva perigosa dos cinqüenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor

que não sabe como é feita: amor
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar

a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais indefeso, corpo! Corpo, corpo, corpo

verdade tão final, sede tão vária
a esse cavalo solto pela cama
a passear o peito de quem ama.

Carlos Drummond de Andrade (n. Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais, a 31 Out 1902; m. Rio de Janeiro a 17 Ago 1987)

 

Indagação – Carlos Drummond de Andrade Outubro 31, 2006

Filed under: Carlos Drummond de Andrade,poesia — looking4good @ 1:22 pm

Como é o corpo?
Como é o corpo da mulher?
Onde começa: aqui no chão
Ou na cabeleira, e vem descendo?
Como é a perna subindo e vai subindo
Até onde?
Vê-la num corisco é uma dor
No peito, a terra treme.
Diz-que na mulher tem partes lindas
E nunca se revelam.

Maciezas
Redondas. Como fazem
Nuas, na bacia, se lavando,
Para não se verem nuas nuas nuas?
Por que dentro do vestido muitos outros
vestidos e brancuras e engomados,
Até onde? Quando é que já sem roupa
É ela mesma, só mulher? E como que faz
Quando que faz
Se é que faz
O que fazemos todos porcamente?

Carlos Drummond de Andrade (n. em Itabira do Mato Dentro (MG) a 31 Out 1902; m. Rio de Janeiro a 17 Ago 1987).

Ler do mesmo autor neste blog: Quero ; O amor antigo

 

Amar – Carlos Drummond de Andrade

Filed under: Carlos Drummond de Andrade,poesia — looking4good @ 9:25 am

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave
de rapina.Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade (n. em Itabira do Mato Dentro (MG) a 31 Out 1902; m. Rio de Janeiro a 17 Ago 1987).

Ler do mesmo autor neste blog: Quero ; Ao amor antigo