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Sombra… – Bernardo de Passos Outubro 29, 2008

Filed under: Bernardo de Passos,poesia,Unicepe — looking4good @ 1:24 am
Rebanho imagem daqui

Nestes ermos, ouvindo a voz das fontes,
de humildes alegrias fui pastor;
meus rebanhos guardava com amor,
contemplando os longínquos horizontes…

Árvores maternais, que ergueis as frontes
verde-tristes, num gesto criador,
junto a vós semeei sonhos em flor,
que vestiram de rosas estes montes…

Mas tudo – riso e sonhos – me levaram…
Perdi meu gado, meus jardins secaram,
já neles não há rosas nem alfombras!

Doura a tarde estes ermos de abandono…
E eu passo – folha morta dum Outono,
sombra vaga a errar por entre sombras!

Bernardo Rodrigues de Passos nasceu em São Brás de Alportel (Algarve) a 29 de Outubro de 1876 e morreu cego em Faro a 1 de Junho de 1930. Começou por se dedicar à vida comercial e ao ensino particular mas, propagandista entusiasta da República, veio a ser administrador do concelho de Faro e, depois, secretário da respectiva Câmara Municipal. Bondoso, tímido e modesto, se tinha reduzida cultura e escassa leitura, não lhe faltava poder emotivo, sensibilidade artística, pureza de forma e elevação de pensamento. Como poeta, evoluiu do decadentismo para o neo-romantismo. A sua melhor recolha é de publicação póstuma: «Refúgio» (1936).

Ler do mesmo autor: Soneto e Quadras Soltas

Soneto e nota biobibliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado – Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.
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Quadras Soltas – Bernardo de Passos Outubro 29, 2007

Filed under: Bernardo de Passos,poesia — looking4good @ 10:00 pm

P’ra mentira ser segura
E atingir profundidade,
Tem que trazer à mistura
Qualquer coisa de verdade.

O rato mete o focinho
Sem pensar que faz asneira
Depois, ou larga o toucinho,
Ou fica na ratoeira.

Há pessoas muito altas
De nome ilustrado e sério
Porque o oiro tapa as faltas
Da moral e do critério.

Enquanto o homem pensar
Que vale mais que outro homem,
São como os cães a ladrar,
Não deixam comer, nem comem.

Quantas sedas aí vão,
Quantos brancos colarinhos,
São pedacinhos de pão,
Roubados aos pobrezinhos!

Sem que o discurso eu pedisse,
Ele falou; e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
Do que disse não gostei.

Bernardo Rodrigues de Passos (n. em 29 Out. 1876 em S. Brás de Alportel; m. em Faro a 1 Jul 1930)

Ler do mesmo autor: Soneto

 

Soneto – Bernardo de Passos

Filed under: Bernardo de Passos,poesia — looking4good @ 9:54 pm

Tão triste eu ando já, e descontente,
Que meus olhos de todo se fecharam
A visão radiosa que sonharam…
– Um lar, um ninho, e um amor ardente…

Gastei a Mocidade loucamente,
E a alma, ou a perdi, ou m’alevaram,
Enquanto a delirar juntos andaram
Cantando amores, coração e mente…

E andando assim da Fé tão apartado,
E tão sozinho nesta solidão
De quem descrente vive do que amou.

Sou qual um tú’mlo vazio e abandonado,
só encerrando a mesma escuridão…
Sepulcro de mim próprio, eis o que sou.

Bernardo Rodrigues de Passos (n. em 29 Out. 1876 em S. Brás de Alportel; m. em Faro a 1 Jul 1930)