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«Vae ser pedida. Casa qualquer dia» – Augusto Gil Fevereiro 26, 2009

Filed under: Augusto Gil,poesia — looking4good @ 12:54 am
Noiva imagem daqui

Tive noticias hoje a teu respeito:
«Vae ser pedida. Casa qualquer dia».
E o coração tranquillo no meu peito
–Continuou a bater como batia…

Surpreso duma tal serenidade,
Todo eu, intimamente, me sondava:
Pois nem ciume? Nem sequer saudade?!
–E nem ciumes, nem saudade achava…

Saudades, não; que o teu amor antigo
Guardam-no as cinzas (neste coração)
Como em Pompeia aquelles grãos de trigo
Que após centenas d’annos deram pão…

Saudades! Mas de quê?! Pois não sei eu
A lei antiga como o proprio mundo
De que o prazer mal chega, já morreu,
E só a dôr nas almas cava fundo?

Causei-te longas horas d’amargura,
Não consegues voltar a ser feliz;
A chaga que te abri não terá cura,
E se curar–lá fica a cicatriz.

Á luz dum juramento que trahiste
Tu has de vêr-me toda a vida pois.
Ergueste-o a Deus num dia amargo e triste
E Deus casou-nos esse dia, aos dois…

Ciumes tambem não, por te venderes.
Desgraçadinha! Antes te houvesses dado;
Não descerias tanto entre as mulheres,
Seria mais humano o teu peccado.

Porém, embora a tua falta aponte,
P’ra mim és a que foste (ou que eu suppuz);
O sol desapparece no horisonte
–E a gente vê-o ainda a dar-nos luz…

Póde a desgraça erguer em frente a mim
Altas montanhas d’elevados cumes.
O sol do amôr doiral-as-ha, e assim,
Vendo-o tão alto, não terei ciumes.

Ciumes! Elle é que hade tel-os, quando,
Em claras noites de luar silente,
Ouvir vibrar alguma voz, cantando
Os versos que te fiz devotamente.

Versos para te ungirem os ouvidos
E os labios d’anemica e de santa,
Tão pobres, tão ingenuos, tão sentidos,
Que o povo humilde os acolheu e os canta.

Então, se te olhar bem, logo adivinha…
Logo sombriamente se convence
De que a tua alma se fundiu na minha
–E apenas o teu corpo lhe pertence.

in Luar de Janeiro

Augusto César Ferreira Gil (nasceu em Lordelodo Ouro, Porto, 31 de Julho de 1873, faleceu em Lisboa a 26 de Fevereiro de 1929)

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Balada da Neve – Augusto Gil Fevereiro 26, 2008

Filed under: Augusto Gil,poesia — looking4good @ 1:11 am

Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
– Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho.

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança…

E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
– e cai no meu coração.

Augusto César Ferreira Gil (n. em Lordelo do Ouro, Porto a 31 de Julho de 1873 e faleceu em Lisboa a 26 de Fevereiro de 1929).

Ler do mesmo autor: Em Vagon

Biografia de Augusto Gil

 

Balada da Neve – Augusto Gil

Filed under: Augusto Gil,poesia — looking4good @ 1:11 am

Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
– Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho.

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança…

E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
– e cai no meu coração.

Augusto César Ferreira Gil (n. em Lordelo do Ouro, Porto a 31 de Julho de 1873 e faleceu em Lisboa a 26 de Fevereiro de 1929).

Ler do mesmo autor: Em Vagon

Biografia de Augusto Gil

 

Balada da Neve – Augusto Gil

Filed under: Augusto Gil,poesia — looking4good @ 1:11 am

Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
– Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho.

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança…

E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
– e cai no meu coração.

Augusto César Ferreira Gil (n. em Lordelo do Ouro, Porto a 31 de Julho de 1873 e faleceu em Lisboa a 26 de Fevereiro de 1929).

Ler do mesmo autor: Em Vagon

Biografia de Augusto Gil

 

Em Vagon – Augusto Gil Julho 31, 2007

Filed under: Augusto Gil,poesia — looking4good @ 3:54 pm

A chaminé vomita fumarada
a máquina assobia, parto enfim!
Na «gare» ao longe, a minha namorada
agita o lenço branco para mim.

Como recatas traçadas a nanquin
sobre um fundo cerúleo de aguada,
vejo no espaço nítidas, assim,
as linhas telegráficas da estrada

O sol, hóstia de luz resplandecente
vai-se elevando gloriosamente
na abóboda vastíssima dos céus

e dois choupos batidos pelo vento
curvam-se num ligeiro cumprimento,
cerimoniosos, a dizer-me adeus…

Augusto César Ferreira Gil (n. em Lordelo do Ouro, Porto a 31 de Jul. de 1873, m. na Guarda a 26 de Fev. de 1929)

in A Circulatura do Quadrado, Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa, Edições Unicepe, 2004
 

Em Vagon – Augusto Gil

Filed under: Augusto Gil,poesia — looking4good @ 3:54 pm

A chaminé vomita fumarada
a máquina assobia, parto enfim!
Na «gare» ao longe, a minha namorada
agita o lenço branco para mim.

Como recatas traçadas a nanquin
sobre um fundo cerúleo de aguada,
vejo no espaço nítidas, assim,
as linhas telegráficas da estrada

O sol, hóstia de luz resplandecente
vai-se elevando gloriosamente
na abóboda vastíssima dos céus

e dois choupos batidos pelo vento
curvam-se num ligeiro cumprimento,
cerimoniosos, a dizer-me adeus…

Augusto César Ferreira Gil (n. em Lordelo do Ouro, Porto a 31 de Jul. de 1873, m. na Guarda a 26 de Fev. de 1929)

in A Circulatura do Quadrado, Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa, Edições Unicepe, 2004
 

Em Vagon – Augusto Gil

Filed under: Augusto Gil,poesia — looking4good @ 3:54 pm

A chaminé vomita fumarada
a máquina assobia, parto enfim!
Na «gare» ao longe, a minha namorada
agita o lenço branco para mim.

Como recatas traçadas a nanquin
sobre um fundo cerúleo de aguada,
vejo no espaço nítidas, assim,
as linhas telegráficas da estrada

O sol, hóstia de luz resplandecente
vai-se elevando gloriosamente
na abóboda vastíssima dos céus

e dois choupos batidos pelo vento
curvam-se num ligeiro cumprimento,
cerimoniosos, a dizer-me adeus…

Augusto César Ferreira Gil (n. em Lordelo do Ouro, Porto a 31 de Jul. de 1873, m. na Guarda a 26 de Fev. de 1929)

in A Circulatura do Quadrado, Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa, Edições Unicepe, 2004