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Uma Manhã, no Golfo do Corinto – António Patrício Março 7, 2009

Filed under: António Patrício,poesia — looking4good @ 3:39 am
Beijo imagem daqui

Uma manhã no golfo de Corinto,
comemos grandes cachos moscatel.
O mar, de leite e azul, tinha veios de absinto;
e o teu corpo, ao sol, como um sabor a mel.

Enlaçámo-nos nus entre loureiros-rosas
róseos e brancos, alternando, até à praia.
– Não tornam mais a vir as horas dolorosas
sumiram-se ao car sútil da tua saia.

E boca contra boca, a sorver bagos de âmbar,
bem brunidos de sol, e sempre a arder em sede,
assim ficámos nós até que veio a tarde
deitar-nos devagar sua mistica rede.

Mostraste-me a sorrir, no golfo, uma medusa
«Queria viver assim, disseste, a vida toda»
Tinhamos vinho com resina numa infusa,
e bebemo-lo os dois para acabar a boda.

Fomos nadar depois a água era tão densa,
que nos trazia, mornamente, ao colo,
num puro flutuar, beatitude imensa,
entre reflexos, a arrolar, de rolo em rolo…

A noite veio enfim estendidos na areia,
pusemo-nos então a entristecer calados.
Como dois mármores um tritão e uma sereia
que o golfo adormecia em soluços velados.

in Antologia de Poesia Erótica e Satírica, Redacção. prefácio e notas de Natália Corrreia, Antígona Frenesi, Lisboa 2005

António Patrício (nasceu no Porto, a 7 de Março de 1878 e faleceu em Macau a 4 de Junho de 1930)

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Uma Manhã, no Golfo do Corinto – António Patrício

Filed under: António Patrício,poesia — looking4good @ 3:39 am
Beijo imagem daqui

Uma manhã no golfo de Corinto,
comemos grandes cachos moscatel.
O mar, de leite e azul, tinha veios de absinto;
e o teu corpo, ao sol, como um sabor a mel.

Enlaçámo-nos nus entre loureiros-rosas
róseos e brancos, alternando, até à praia.
– Não tornam mais a vir as horas dolorosas
sumiram-se ao car sútil da tua saia.

E boca contra boca, a sorver bagos de âmbar,
bem brunidos de sol, e sempre a arder em sede,
assim ficámos nós até que veio a tarde
deitar-nos devagar sua mistica rede.

Mostraste-me a sorrir, no golfo, uma medusa
«Queria viver assim, disseste, a vida toda»
Tinhamos vinho com resina numa infusa,
e bebemo-lo os dois para acabar a boda.

Fomos nadar depois a água era tão densa,
que nos trazia, mornamente, ao colo,
num puro flutuar, beatitude imensa,
entre reflexos, a arrolar, de rolo em rolo…

A noite veio enfim estendidos na areia,
pusemo-nos então a entristecer calados.
Como dois mármores um tritão e uma sereia
que o golfo adormecia em soluços velados.

in Antologia de Poesia Erótica e Satírica, Redacção. prefácio e notas de Natália Corrreia, Antígona Frenesi, Lisboa 2005

António Patrício (nasceu no Porto, a 7 de Março de 1878 e faleceu em Macau a 4 de Junho de 1930)

 

Relíquia – António Patrício Junho 4, 2007

Filed under: António Patrício,poesia — looking4good @ 6:05 pm

Era de minha mãe: é um pobre xale,
Que tem p’ra mim uma carícia de asa.
Vou-lhe pedir ainda que me fale
da que ele agasalhou em nossa casa.

Na sua trama, já puída e lassa,
Deixo os meus dedos p’ra senti-la ainda;
E Ela vem, é Ela que me abraça,
Fala de coisas que a saudade alinda.

É a minha mãe mais perto, mais pertinho,
Que eu sinto quando toco o velho xale,
Que guarda não sei quê do seu carinho.

E quando a vida mais me dói, no escuro,
Sinto ao tocá-la como alguém que embale
E beije a minha sede de amor puro.

António Patrício (n. no Porto a 7 Mar 1878, m. em Macau a 4 Jun 1930)

 

Relíquia – António Patrício

Filed under: António Patrício,poesia — looking4good @ 6:05 pm

Era de minha mãe: é um pobre xale,
Que tem p’ra mim uma carícia de asa.
Vou-lhe pedir ainda que me fale
da que ele agasalhou em nossa casa.

Na sua trama, já puída e lassa,
Deixo os meus dedos p’ra senti-la ainda;
E Ela vem, é Ela que me abraça,
Fala de coisas que a saudade alinda.

É a minha mãe mais perto, mais pertinho,
Que eu sinto quando toco o velho xale,
Que guarda não sei quê do seu carinho.

E quando a vida mais me dói, no escuro,
Sinto ao tocá-la como alguém que embale
E beije a minha sede de amor puro.

António Patrício (n. no Porto a 7 Mar 1878, m. em Macau a 4 Jun 1930)

 

Relíquia – António Patrício

Filed under: António Patrício,poesia — looking4good @ 6:05 pm

Era de minha mãe: é um pobre xale,
Que tem p’ra mim uma carícia de asa.
Vou-lhe pedir ainda que me fale
da que ele agasalhou em nossa casa.

Na sua trama, já puída e lassa,
Deixo os meus dedos p’ra senti-la ainda;
E Ela vem, é Ela que me abraça,
Fala de coisas que a saudade alinda.

É a minha mãe mais perto, mais pertinho,
Que eu sinto quando toco o velho xale,
Que guarda não sei quê do seu carinho.

E quando a vida mais me dói, no escuro,
Sinto ao tocá-la como alguém que embale
E beije a minha sede de amor puro.

António Patrício (n. no Porto a 7 Mar 1878, m. em Macau a 4 Jun 1930)