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A Ermitagem da Montanha – António Feliciano de Castilho Junho 18, 2009

Filed under: António Feliciano de Castilho,poesia — looking4good @ 12:44 am

(…)
Sim, Júlia, querida Júlia;
Ah! pudesse o meu amor
Dar-te da sua violência
Uma prova inda maior!

Atravessar por desertos
A extensão da imensidade;
Passar mil séculos juntos
No meio da tempestade;

Fender todo inteiro a nado
De fogo um mar infinito;
-Júlia, eu te amo, eu te amo, ó Júlia
Ninguém me ouvira outro grito.

extraído de Os dias do Amor, Um poema para cada dia do ano, Recolha, selecção e organização de Inês Ramos; prefácio de Henrique Manuel Bento Filho, Ministério dos Livros 2009

António Feliciano de Castilho (n. 28 Jan 1800; m. 18 Jun 1875)

 

Convite para a Felicidade – António Feliciano de Castilho Junho 18, 2005

Filed under: António Feliciano de Castilho,poesia — looking4good @ 7:39 pm

Ditoso, Júlia, ditoso,
quem livre de inquietação
come os frutos que semeia,
e dorme no seu torrão;

que desconhece das cortes
intriga, esperança e receios,
que julga acabar-se o mundo,
onde acabam seus passeios.

Penúria e riqueza ignora,
dois escolhos da virtude,
e tira do seu trabalho
bens, prazer, vigor, saúde.

De iguais rodeado vive,
e só tem por superior
seu Criador no outro mundo,
na paróquia o seu pastor.

As aras jamais incensa
de Astreia, Minerva ou Marte,
mas Baco e Pomona e Ceres
lhe riem de toda a parte.

Mais apertado não vive
na avita cabana herdada,
que o rico em salões de estuque,
de alta, soberba fachada.

Em vez de jardins estéreis,
faz consistir seu prazer
em lhe à porta verdejarem
as couves que fez nascer.

Dorme em colmo um sono inteiro,
enquanto, em doirado leito,
o nobre se volve, e geme,
de aflição ralado o peito.

Ao lado lhe dorme a esposa,
fiel, inocente e bela;
o filhinho, imagem sua,
dorme em paz ao seio dela.

Se ela lhe diz: – eu te adoro,
eu te amarei toda a vida! –
de ser verdade o que escuta
nem um momento duvida.

Sabe que a fé, que a virtude,
virtude pura, ilibada,
dons mais belos que a beleza,
são numes da sua amada.

Ela não vive no meio
da corrupta mocidade,
que adorna, envenena, empesta,
das cortes a sociedade.

Não quer brilhar nos passeios,
nem de mil adoradores
vai disputar nos teatros
os suspiros e os louvores.

Passa a noite ao pé do esposo,
entre os filhos passa o dia,
o trabalho a ocupa sempre:
ser infiel poderia?

Da sua família é toda,
nela concentra a afeição,
que as damas à intriga, às festas,
ao jogo, aos enfeites dão.

Quer-se ornar nos santos dias?
Não se assenta ao toucador
em vez de jóias brilhantes
procura singela flor.

Para arranjar seus cabelos,
nem corre ao cristal da fonte;
não carece de outro espelho,
tem seu consorte defronte.

Ele lhe ensina a maneira
por que lhe ficam melhor;
ele lhe diz em que sítio,
e como lhe ajusta a flor.

Se lhe agrada, está contente;
e vai de inocência cheia
entrar com ele nas festas,
nas festas simples da aldeia.

Ah, Júlia! Que sorte a de ambos!
Sem longas filosofias,
sabem melhor do que os sábios
desfrutar serenos dias.

Os princípios, os sistemas,
sonhos de estéril vaidade,
jamais tornaram ditosa
a mesquinha humanidade..

Se existe o bem sobre a terra,
se queres, Júlia, este bem,
uma aldeia… uma cabana…
ternura… inocência… Ah, vem!

António Feliciano de Castilho (n. 28 Jan 1800; m. 18 Jun 1875)