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Noturno – Alceu Wamosi Fevereiro 14, 2008

Filed under: Alceu Wamosi,poesia — looking4good @ 2:09 am


Tu pensarás em mim, por esta noite imensa
e erma, em que tudo é um frio e um silêncio profundo?
Tu pensarás em mim? Por esta noite, enfermo,
tendo os olhos em febre e a voz cheia de sustos,
eu penso em ti, no teu amor e na promessa
muda que o teu olhar me fez e que eu espero.

(Que dor de não saber se tu pensas em mim!)

Sob a tenda da noite estrelada de outono,
que eu contemplo através os cristais da janela,
junto ao manso tepor da lâmpada que escuta
— antiga confidente — os meus sonhos e as minhas
vigílias de tormento, eu penso em ti, divina.

(E tu talvez nem te recordes deste ausente!)

Penso em ti. Penso e evoco o teu vulto adorado.
Penso nas tuas mãos — um lis de cinco pétalas —
que, em vez de sangue, têm luar dentro das veias;
nos teus olhos, que são Noturnos de Chopin
agonizando à luz de uma tarde de sonho;
na tua voz, que lembra um beijo que se esfolha.
Penso.

(E nem sei se tu também pensas em mim!)

Talvez não. No tranquilo altar da tua alcova,
onde se extingue a luz de um velho candelabro
como uma lâmpada votiva, tu adormeces
sorrindo ao Anjo fiel que as tuas pálpebras fecha
para que tu não tenhas sonhos maus.
E eu penso
em ti, sem sono, a sós, angustiado e febril,
em ti, que nem eu sei se te lembras de mim…

ALCEU WAMOSY (n. em Uruguaiana, Rio Grande do Sul (RS) a 14 Fev. 1895; m. em Livramento (RS), em 13 Set.1923).

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Ária Antiga – Alceu Wamosi Setembro 13, 2007

Filed under: Alceu Wamosi,poesia — looking4good @ 12:48 pm
Quietud en el Atardecer Oil On Canvas 24″ x 29″
by Ramon Vilanova

Chora o orvalho da luz sobre a rosa do dia
que se fecha. O jardim todo lembra um altar
para o qual sobe o incenso azul da nostalgia,
e onde os lírios estão de joelhos, a rezar.

Tu cantas para mim. Tua voz, triste e mansa,
vem trazendo, a gemer, dos confins da lembrança,
qualquer coisa de velho, onde a vida se esfume.

Quando a voz adormece um fantasma desperta.
A tua boca é como uma rosa entreaberta
que a saudade acalante e o passado perfume.

E essa velha canção que o teu lábio cicia,
no momento em que a tarde adormece no olhar,
enche o meu coração de uma vaga harmonia,
de um desejo pueril de ser bom, e chorar

Alceu de Freitas Wamosi (n. em Uruguaiana (RS) a 14 de Fev 1895, m. em Livramento (RS) a 13 Set 1923)

 

Duas Almas – Alceu Wamosy Setembro 13, 2005

Filed under: Alceu Wamosi,poesia — looking4good @ 4:15 pm

Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada,
entra e, sob este tecto, encontrarás carinho;
eu nunca fui amado e vivo tão sozinho,
vives sozinha sempre e nunca foste amada…

A neve anda a branquear, lividamente, a estrada…
e a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
Entra, ao menos, até que as curvas do caminho
se banhem no esplendor nascente da alvorada.

E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,
essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
podes partir de novo, ó nómada formosa!

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:
há-de ficar comigo uma saudade tua…
hás-de levar contigo uma saudade minha…

Alceu Wamosi (n. em Uruguaiana, 14 Fev 1895; m. em Livramento 13 Set 1923)