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Mea Culpa – Miguel Torga Janeiro 17, 2005

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Vida!

Como eu te quero

Agora que te sei perdida!

Foste a minha riqueza

Desbaratada.

Em vez de te poupar,

Gastei-te sem saber o que fazia.

E não vivi.

Morri

Em cada hora cega que vivia.

São assim os humanos.

Temos quando não temos.

Quando já não podemos

Subir onde subimos

E onde não estivemos.

Triste, já nem aos deuses

Peço remissão

Do nefando pecado

De, em tantos anos de duração,

Ter durado

A ignorar em mim o meu condão

De milagre encarnado.

Coimbra, 7 de Junho de 1992

in Diário XVI – 1993

Miguel Torga – Poesia Completa -Edições D. Quixote

 

Anátema – Miguel Torga

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Não amas, e não podes

Ler o livro da vida.

Sem amor nenhuns olhos são videntes.

A tarde triste é o sol que não consentes

Ao coração.

Mundo de solidão,

O que atravessas,

É um deserto habitado

Onde tropeças

Na sombra do teu eu desencantado

Coimbra, 20 de Outubro de 1976

in Diário XII – 1977

Miguel Torga-Poesia Completa – Edições D. Quixote

 

Livro de Horas – Miguel Torga

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Ao fazer hoje dez anos que morreu em Coimbra, este espaço de poesia é dedicado a Miguel Torga, de seu verdadeiro nome Adolfo Correia da Rocha. Nasceu em S. Martinho da Anta, Trás-os-Montes no dia 12 de Agosto de 1907. Formado em Medicina pela Universidade de Coimbra, recebeu vários prémios literários onde se inclui o Prémio Camões em 1989 e em 1992 o prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores.

Livro de Horas

Aqui, diante de mim,

eu, pecador, me confesso

de ser assim como sou.

Me confesso o bom e o mau

que vão ao leme da nau

nesta deriva em que vou.

Me confesso

possesso

de virtudes teologais,

que são três,

e dos pecados mortais,

que são sete,

quando a terra não repete

que são mais.

Me confesso

o dono das minhas horas.

O das facadas cegas e raivosas,

e o das ternuras lúcidas e mansas.

E de ser de qualquer modo

andanças

do mesmo todo.

Me confesso de ser charco

e luar de charco, à mistura.

De ser a corda do arco

que atira setas acima

e abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo

que possa nascer em mim.

De ter raízes no chão

desta minha condição.

Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.

De ser o anjo caído

do tal céu que Deus governa;

De ser o monstro saído

do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.

Eu, tal e qual como vim

para dizer que sou eu

aqui, diante de mim!

in “O Outro Livro de Job” (1936).

Miguel Torga-Poesia Completa- Publicações D. Quixote

 

On this day in History – Jan. 17

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