Minha vida era um palco iluminado.
Eu vivia vestido de dourado
— Palhaço das perdidas ilusões.
Cheio dos guizos falsos da alegria,
Andei cantando a minha fantasia
Entre as palmas febris dos corações…
Meu barracão no morro do Salgueiro
Tinha o cantar alegre de um viveiro
— Foste a sonoridade que acabou…
E, hoje, quando do sol a claridade
Forra meu barracão, sinto saudade
Da mulher — pomba-rola que voou…
Nossas roupas comuns dependuradas
Na corda, qual bandeiras agitadas,
Pareciam um estranho festival:
Festas dos nossos trapos coloridos,
A mostrar que nos morros mal vestidos
É sempre Feriado Nacional!
A porta do barraco era sem trinco.
Mas a lua, furando o nosso zinco,
Salpicava de estrelas nosso chão…
Tu pisavas os astros, distraída,
Sem saber que a ventura desta vida
É a Cabrocha, o Luar e o Violão…
Orestes Dias Barbosa (n. em 7 Maio 1893 no Rio de Janeiro (RJ); † em 15 Ago 1966 no Rio de Janeiro (RJ))



